2007-08-04

Ignorância, saber e fraude

Ando irritado com as montanhas de pessoas que compram produtos "orgânicos". Não sabem nada sobre o assunto e afirmam, com a certeza dos religiosos, que os produtos "orgânicos" são mais saudáveis, previnem o cancer, envelhecimento precoce, Mal de Alzheimer... Por outro lado, produtos não-"orgânicos" seriam puro veneno, todos as doenças sem cura seriam causadas por estes.

Afinal o que significa a palavra "orgânico"? O significado básico é "proveniente de organismos vivos". Entretanto há muito mais escondido nessa palavrinha.

Até o ano de 1828, acreditava-se que as substâncias dividiam-se em dois "reinos". Havia as substâncias "minerais" e as "orgânicas". Achava-se que era impossível sintetizar uma substância orgânica sem o auxílio de um organismo vivo, ou a partir de uma substância que não tivesse uma origem animal ou vegetal.

Assim, seria impossível combinar substâncias como metais, carbono, ou gases atmosféricos para gerar uma substância complexa, existente em organismos vivos. A teoria chamava-se "vitalismo" e dizia que os seres vivos tinham uma "força vital" que era necessária para a síntese de substâncias orgânicas.

O que aconteceu em 1828? Um químico alemão, Friedrich Wöhler, provou que essa teoria estava equivocada. A partir de nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e carbono sintetizou a uréia, uma substância "orgânica" que já havia sido isolada da urina em 1800.

Coloquei a palavra "orgânica" entre aspas porque a partir desse momento o significado da palavra mudou. Substâncias orgânicas passaram a ser simplesmente compostos com cadeias de carbono na molécula.

Não há dúvida de que os compostos orgânicos podem ser extremamente complexos e é muito difícil a produção de proteínas, por exemplo, a partir de métodos comuns de laboratório. Entretanto técnicas estão sendo desenvolvidas que combinam a engenharia genética com o modelamento de proteínas que poderão resultar em compostos especiais muito complexos sendo sintetizados com objetivos específicos.

O que acontece é que a ciência progride, mas a cabeça das pessoas não.

Voltemos ao significado inicial, as tais verduras "orgânicas" que uma imensa maioria de pessoas defendem até a morte. O que elas estão defendendo? Por acaso elas mesmas sabem?

Os produtos agrícolas que chamam de orgânicos não deveriam ter em sua produção a utilização de produtos químicos artificiais, feitos pelo homem, como fertilizantes, defensivos ou qualquer outra coisa. Acontece que os produtos químicos feitos pelo homem e os feitos pelos seres vivos são hoje difíceis de distingüir. Os defensivos e os fertilizantes de última geração são os responsáveis por um aumento de produtividade na agricultura de mais de 20 vezes, comparando com a nua e crua enxada no chão. Apesar de que produtos como o DDT causaram danos antes que se soubesse que eles tinham efeitos acumulativos no corpo humano e de animais, o balanço de todas as tecnologias é extremamente positivo. Não só a produtividade aumentou mas também a expectativa de vida e a capacidade do mundo de abrigar mais seres. Por acaso isso é ruim?

Mais ainda, os produtos agrícolas de última geração são ainda mais seguros: os geneticamente modificados utilizam estratégias de outros organismos para se defender de insetos ou parasitas que de outra maneira reduziriam muito o rendimento agrícola. Isso é feito justamente para tornar os produtos mais seguros, e não o contrário. Nunca se soube de ninguém que tenha morrido ou ficado doente por comer um legume modificado geneticamente. A oposição a este tipo de produto é movida pela mais profunda ignorância e misticismo natureba.

O que é mais triste é que inescrupulosos se aproveitam da ignorância alheia, e isso é fraude. Além de vender esses produtos a preços mais altos, a sua baixa eficiência faz com que a fabricação de mirrados tomates requeira uma área muito maior, destruindo áreas naturais que poderiam ser preservadas. É simplesmente mais um exemplo do custo crescente da fraude e da ignorância. Isso acontece em todo o mundo, simplesmente porque o conhecimento é demonizado, enquanto o misticismo é canonizado. Estranha inversão.

5 comentários:

Bira disse...

Faltou o detalhe do problema do descontrole populacional, que alavancou a industria de defensivos agricolas e a destruição de extensas áreas de mata nativa, sem contar a violência no campo.
Os produtos organicos são uma alternativa para quem deseja se alimentar com menos veneno que o de costume. O gosto é bem diferente.

Eduardo disse...

Gostei Zappi!
Este assunto me provoca nojo. As pessoas aceitam tudo sem checar e passam pra frente “enriquecendo a sabedoria popular”. Ajhh!
Fico muito bravo quando escuto: “.....este alimento não tem química....bla, bla, bla...” normalmente o sujeito não sabe o significado de química.
Parabéns Zappi, sugiro artigos sobre homeopatia, mal olhado e comida brasileira (insubstituível).

Otcílio M. Guimarães disse...

Ignorância, misticismo e burrice mesmo! Apesar do extraordinário avanço da ciência na agropecuária, 1/3 da população mundial ainda passa fome. Não fossem os defensivos agrícolas e os adubos químicos, 2/3 já teria morrido de fome. Além disso, nunca ouvi falar que alguém morreu porque comeu produtos cultivados com defensivos e adubos químicos. Eu sempre comi e estou com 64 anos em perfeita saúde. O mesmo acontece com os palermas que não comem carne vermelha. Não sabem o maravilhoso sabor de uma picanha assada na brasa. Pior para eles. Parabéns pelo artigo, Zappi.

Gerson B disse...

Não vou agradecer por ser chamado de palerma por quem não me conhece. Sou médico e até entre o médicos há um consenso quanto aos problemas causados pelo consumo de carne vermelha. E ocorrem casos de intoxicação por agrotóxicos que saem nos jornais de tempos em tempos. Mas queria só deixar um link aqui que tem informações sobre o assunto do post:
http://www.planetaorganico.com.br/estudomichigan07.htm

pait disse...

Aqui eu discordo do Zappi. A agricultura moderna usa uma enormidade de compostos químicos artificiais. A maioria têm pequenos efeitos sobre o ser humano - são razoavelmente seguros. Porém muitos têm efeitos negativos para o consumidor, para a fauna, e para o meio ambiente. O efeito cumulativo de todos esses pesticidas, herbicidas, hormônios, antibióticos, fertilizantes, e sei lá mais o que não é bem conhecido. Provavelmente estudar e entender tudo isso está além da capacidade da ciência atual.

Comprando produtos orgânicos estamos tomando a precaução de minimizar estes efeitos. O custo dos alimentos orgânicos é um pouco maior, mas é uma margem de cautela e segurança com um custo razoável em muitos casos.