2006-06-11

Surpreendentes mundos novos

Fico impressionado de como hoje em dia as pessoas parecem precisar de excitação para viver. Se um filme não tiver bastante sangue e pancadaria, ele é considerado chato. Efeitos especiais, velocidade, luzes, cores, tudo tem que ser fornecido pronto para que as pessoas se 'divirtam'. O Brasil não é chato: todas as manhãs o jornal traz alguma desgraça que vai afetar direta ou indiretamente a vida do leitor. Que tal usar como exemplo o evento promovido pelo PCC, que parou São Paulo? Pode-se chamar aquilo de qualquer coisa, mas chato? Uma carnificina a céu aberto, de dia ou de noite. Excitante e trágico.

Aqui na Austrália houve uma comoção nacional porque um moleque matou um gato. O problema é que o que ele fez foi gravado por uma câmara de video de um posto de gasolina. Durante mais de uma semana só se falou nisso. Pegaram o cara. Foi condenado a prestar serviços comunitários para a sociedade de proteção aos animais. Não sei se acho isso um tédio. O que sei é que firmas de publicidade se aproveitaram do assunto por meses. Uma das campanhas mostrava um boxeador gigantesco, suado e surrado, segurando um gatinho. Ele olhava para a câmara e dizia: "Quem mexer com meu gatinho eu arrebento de porradas!"

Melbourne fica no meio de uma baía, e o mar está normalmente muito calmo, sem ondas. As marés sobem e descem regularmente. De vez em quando, entretanto, ventos fortes sopram e ondas razoáveis aparecem do nada. Quando o mar está calmo e há algum vento os veleiros saem enlouquecidos fazendo com que a paisagem se transforme: as velas brancas indo e vindo parecem até de brinquedo. No inverno, entretanto, o mar é muito frio e poucos se aventuram a velejar... em resumo, no inverno é chato.

Moro perto do porto. Todos os dias sai um navio para a Tasmânia. No frio as mesas que ficam na calçada em todos os restaurantes e bares são pouco frequentadas. As ruas ganham um aspecto deserto, especialmente à noitinha, a ponto de ficarmos em dúvida se mora mesmo alguém por aqui. Como não temos nenhum grande parque de diversões ou 'Sea World' como em Gold Coast, o que dizemos? Que é chato.

Pego a bicicleta e saío pedalando. Há uma pista de uns vinte quilômetros de comprimento que beira a baía em direção leste. É lindo, no verão. As cores de inverno são mais apagadas, às vezes há névoa e chuvisca ou chove. Gosto muito, especialmente com névoa. Em St Kilda, a 5 quilômetros de casa há um pier longo que percorro também. Sentando nas pedras, de um lado pode-se ver os arranha-céus da cidade mas olhando para o lado oposto parece que a civilização deixa de existir. É uma ilusão fugaz. Continuo pedalando a leste, até Brighton.

A praia inteira está coberta de conchinhas. A água é transparente e às vezes arraias vêm até a praia. Medusas azuis e vermelhas são comuns também, assim como cardumes de peixes pequeninos. Sabemos que há algo vivo por aí quando as gaivotas ficam enlouquecidas. Algo para comer, na certa.

Os australianos dizem que a praia perto da cidade é chata. Eu acho que não... vamos ver. Em Brighton, há umas pedras. Aqui parecem ter origem vulcânica antiga e formam poças naturais, verdadeiros aquários, que enchem de água na maré alta e permanecem cheios durante a maré baixa. Dia após dia, ano após ano. São colonizados naturalmente por plantas e animais, moluscos e vertebrados. Em alguns, podemos ver um ou dois peixes solitários. Escolheram viver aí. É mais seguro que o mar aberto, além de ser mais quente.

A harmonia e beleza destes "aquários naturais" me surpreende. Ninguém mais parece se importar. Ao andar nas pedras, percebo que sou sempre o único fazendo isto: ninguém chega nem perto. As pessoas olham para mim com aquela cara de "cada louco com a sua mania"... não me importo, e continuo tirando fotos. Não consigo capturar na câmara os habitantes vertebrados deste aquário, eles fogem quando me vem, escondem-se atrás das algas, acham que sou algum predador, uma gaivota talvez. Bom, falo dos vertebrados como se fossem mais espertos do que os invertebrados, o que nem sempre acontece.

Em um desses "aquários" havia um polvo. Ele me viu e ficou bem fininho e literalmente escorreu de uma poça para a outra, saindo da água, esgueirando-se pelas frestas e deformando-se sem esforço, ora esticando-se ora preenchendo uma cavidade como se fosse uma grande gota de um fluido viscoso e pesado em baixo d'água. Intrigou-me saber qual o destino final daquele ser gosmento. Era totalmente claro que sabia o caminho, sabia exatamente por onde ir e onde queria chegar, e ainda como fazê-lo sem chamar a atenção. No fim entrou em uma poça e foi em direção a um minúsculo furo na pedra. "Ele não está pensando em entrar aí, está?" perguntei-me, impressionado. Não sei dizer como, mas ele entrou em um buraco que não tinha mais do que um centímetro de diâmetro, aparentemente sem muito esforço. Sumiu lá dentro. A sensação de 'ser' deve ser muito diferente para uma criatura inteligente que, de certa maneira, não possui forma.

Para as criaturas pequenas esses mundos são como florestas com diversos tipos de alga, que brilham ao sol. A água gelada da baía de Melbourne permanece aquecida pelo sol nas pedras durante a maré baixa, permitindo a reprodução de milhares de caracóis. À medida que eu andava, ouvia estalidos embaixo dos meus pés. Aproximei-me para ver melhor: eram minúsculos caracóis, de não mais de um ou dois milímetros de diâmetro, que existiam aos milhões na pedra seca. Eu os estava esmagando aos milhares, sem perceber. Nos aquários, caracóis de diversos aspectos subiam uns em cima dos outros. Era um interessante espetáculo de cor e movimento.

Em outro "aquário" encontrei uma concha gigante. Quando a levanto, um pequeno polvo grudado com suas ventosas na concha e compacto, redondo. Ele estava imóvel. Não havia como fazê-lo reagir: a imobilidade era sua última chance de vida. Este incrível ser refugiava-se no esqueleto morto de outra criatura. Pensei no Náutilus, um parente dos polvos que realmente possui concha. Por que os polvos a terão perdido? Agora tinham que usar as dos outros...

Não consigo parar de olhar para a água, que aqui tem uma cor impossível de descrever, um azul muito puro, uma cor realmente atraente. Não dá impressão fria nem úmida, é um azul confortável, decorativo, móvel. O que as estranhas criaturas dos micro ambientes acham dessa cor? Perigosa, tenebrosa, assustadora talvez? Parecem bem contentes em seus mundinhos aquecidos.

Continuo me perguntando por que as pessoas acham tudo sempre chato? O que lhes falta para que possam perceber o fantástico mundo à sua volta? Acho que nunca vou entender...

6 comentários:

shirlei horta disse...

Primeiro, devo dizer que tenho tentado várias vezes deixar comentários, mas o Blogspot está sofisticando o sistema (é a desculpa que dão) e nunca consigo. Vi, no entanto um comentário sobre você no Blog do Tambosi e vim correndo ver se "já" poderia usar o espaço. O que bateu de pronto pra mim nesse texto é a minha eterna perplexidade com as pessoas que alegam que existem "outras vidas além dessa, já que, se fosse só essa seria muito pouco"!!!!!!!!!! Eu penso exatamente como você: será que ninguém tá vendo que aquela onda é apenas aquela onda, não vai voltar nunca mais, nem no meu pensamento será ela? Será que ninguém repara que essa vida é demais, que não damos conta dela, que estamos imerso em bilhões de maravilhosas informações que nunca decodificaremos? E elas querem mais? SOCOOOOOOOOOORROO!!!!

zappi disse...

Obrigado, Shirlei!

Sabe você me fez lembrar novamente de Richard Feynman, um dos grandes físicos do século 20. Uma vez perguntaram-lhe se havia algum problema de Física clássica impossível de resolver. Ele pensou um pouco e veio com este:

Um homem chega perto de uma cachoeira. Não tão perto como para se ensopar, mas recebe alguns pingos aqui e ali. Ajusta sua posição e distancia de modo a receber um pingo no nariz a cada dez ou vinte segundos, mais ou menos. A pergunta é: dado o estado do mundo neste momento, dado que recebeu um pingo no nariz exatamente agora, quando, exatamente quando um outro pingo vai cair no nariz dele? O problema é impossível porque intratável. É necessário saber em detalhes tudo o que acontece em toda a cachoeira, cada pequeno redemoinho no rio, a separação de cada gota lá em cima, a posição das árvores, ventos, brisas, cada átomo tem que estar descrito, e uma vez feito isso um monstruoso simulador tem que ser alimentado com esta monstruosidade de dados e processar com a velocidade necessária para terminar as contas antes do próximo pingo. Pode-se saber aproximadamente, em forma estatística, e é o que a previsão do tempo tenta fazer.

Tudo isso para dizer que você tem razão, aquela onda nunca vai voltar.

Eduardo disse...

Apenas una pregunta: que foto es esa [IMG_5483.jpg] que muestra vegetales creciendo en todas las direcciones?
Me extrañó mucho!
Un abrazo
Eduardo

Orlando Tambosi disse...

Chata é a nossa espécie, Zappi.

Abs., Tambosi

P.S.: que beleza de texto.

Zappi disse...

Muito obrigado, Tambosi.

Eduardo, a foto mostra uma poça de água salgada nas pedras. Como a rocha é impermeável, a água permanece lá durante toda a maré baixa, e as algas crescem a partir dos lados formando aquários naturais. A pedra é mais quente do que a água circundante e possibilita um crescimento acelerado. É muito interessante e se eu tivesse tempo sairia passeando por aí só para tirar fotos destes. Cada um é como uma obra de arte.

shirlei horta disse...

Vim aqui confirmar o rumo de-mal-a-pior da terra brasilis. Acabou hoje a Primeira Leitura. Veja comigo: o IBGE não pode mais divulgar os dados de suas pesquisas sem que o consentimento (censura) do Executivo; Boris Casoy está desempregado por pressão de Lullallá. Este fim de semana fechou o blog Minuto Político. Hoje fechou Primeira Leitura. Quando perguntado por um jornalista sobre por que não atende a entrevistas coletivas, Lullallá respondeu que faz pelo menos três discursos por dia. O obscurantismo, o controle da info, a manipulação dos dados nos levam celeremente para a merda. Nossa, hoje estou down and out. Também, como não estar... Feynman AINDA tem razão!!! Tem uma etiquetinha "não vote em mensaleiro" no blog do Tambosi, no meu, no Cláudio Abramo. E deixa eu ir tratar da falta de luz no cérebro brasileiro. Beijo.