2006-04-06

Nunca ajude a quem não pede ajuda


Estou re-editando um post antigo que fez sucesso, sobre Richard Feynman e sua visita ao Rio em 1953. Tive a grata surpresa de saber que o livro que mencionei lá está sendo editado pela primeira vez no Brasil, sob o nome "O SENHOR ESTA BRINCANDO, SR. FEYNMAN? e pode ser comprado através da Livraria Cultura. Basta clicar na capa:




As notas de aula de quando Feynman esteve no Rio de Janeiro estão aqui:


O livro vale mesmo a pena. Além de contar algo de sua visita ao Brasil, ele cita alguns interessantes eventos ocorridos nos bastidores do Projeto Manhattan, o codinome do esforço de pesquisa que resultou no desenvolvimento da primeira bomba atômica, na segunda guerra. Segue o meu post.




Nunca ajude a quem não pede ajuda

Era claramente uma idéia genial. Usariam fundos de entidades internacionais para promover a cultura, promover o intercâmbio de idéias. No mundo pós-guerra acreditava-se que essa seria a melhor maneira de evitar os horrores que decorreram da falta de entendimento, das diferenças culturais.

A Ciência seria o meio ideal. Como está baseada no método experimental, até os mais recalcitrantes místicos tem que, no fim, concordar com os resultados, se seguirem preceitos lógicos. O estímulo ao ensino de ciência era a forma de estimular o pensar, erguer a humanidade a um novo patamar. Não poderiam ter sido mais nobres as intenções.

A idéia era enviar professores de grande prestígio a países sub-desenvolvidos. Esses professores lecionariam em universidades por um ano e voltariam para seus países de origem. Os seus salários seriam subsidiados por organismos internacionais, efetivamente transferindo riqueza intelectual para lugares que jamais teriam como contratar gente deste gabarito. Nada poderia sair errado. Era uma idéia perfeita.

Um deles, o Professor Richard Feynman, adorou a idéia. Ele ganharia posteriormente um premio Nobel em Física e estava em um ano sabático. Queria mudar de ares. Pensou em aprender Espanhol, mas viu uma moça bonitinha entrando em uma aula de Português... e entrou na sala. O Rio de Janeiro o seduzia. Não teve dificuldade em conseguir a transferência para uma universidade carioca. O ano era 1953.

Feynman, para quem não sabe, era um tipo especial. Como professor, sempre aparecia com novidades sobre como atacar um problema, remanejar matematicamente, virar tudo pelo avesso, sempre de alguma maneira que fizesse sentido. Era entusiasmado com a vida, apesar de ter sofrido bastante. Casou-se com sua paixão da adolescência, que morreu imediatamente depois. Mesmo assim era um tipo que enxergava tudo de maneira positiva, comunicava-se claramente e entusiasticamente e tinha uma força vital impressionante. Era muito querido por seus alunos, e formava-se naturalmente uma turma ao redor dele. Uma turma que compartilhava de seus anseios. Há um filme baseado na vida dele. Nunca assistam. É uma porcaria. Matthew Broderick é um ator de quinta categoria, e ele é quem faz o papel de Feynman. Em lugar do filme, leiam os seus livros. Um dos mais interessantes é "O senhor está brincando, Sr Feynman?". Quem gosta de Física pode se deliciar com suas "Lectures". É um gênio de primeira grandeza, e sempre se pode aprender com eles. Mas há uma coisa fenomenal em Surely you're joking. Algo que notei, mas nunca tinha pensado em profundidade até ver o fenômeno claramente descrito no livro.

Bom, como dizia, era 1953. Feynman fica encantado com o Rio. Surge então um problema misterioso quando começa a dar aulas. Há uma debandada geral de alunos. Eles vem mais tarde, em um pequeno comitê, para explicar que eles não fariam as lições pois eram muito simples e eles teriam que estudar para materias do curso (esta era fornecida como optativa). Então, Feynman, que não entendeu direito como as coisas funcionam no Brasil, tratou de passar tarefas mais difíceis. Nada deles fazerem.

Notou que só dois ou tres alunos assistiam ao curso e faziam o que era pedido. Quem quiser as notas de classe daquela época veja aqui. Notou também que nenhum destes tinha estudado anteriormente no Brasil. Eram estrangeiros ou filhos de estrangeiros. Intrigado, começou a estudar mais profundamente os métodos de ensino no Brasil. Notou que a maior parte dos outros, que pareciam bons alunos, eram na verdade papagaios que estudavam para atravessar as provas. Todo o sistema era construído para esses, que na verdade não aprendiam: decoravam. Ele verificou com cuidado o tipo de prova que era oferecido e por que não se detectava o problema. Notou também que ninguém tinha interesse em mudar nada. Os alunos estavam satisfeitos. Os professores também.

Frustrado, em seu discurso final, na formatura, explicou, em Português: "No Brasil não se ensina Ciência".

Todos ficaram assustados. O que ele estava fazendo? Explicou a reação dos alunos e dos outros professores, descreveu com cuidado os problemas que encontrou. Tudo o que conseguiu foi desencadear fúria dos acadêmicos, dos patrocinadores, dos jornais, de todo o mundo.

Feynman sentiu que tinha a responsabilidade de avisar, de contar a todos o que ele viu. Foi ignorado soberanamente. Esse lugar é de uma arrogância incrível... Este professor que até aprendeu Português, foi batucar na escola de samba e tentou com toda a sua força ajudar... só foi atacado. Eu, que teria adorado fazer um curso com ele, entendo bem o que ele quis dizer. 30 anos depois, nada mudou. 50 anos depois, não sei, mas apostaria que tudo continua igual, se não tiver piorado.

O grande erro é, como uma vez um amigo comentou, que não se deve ajudar a quem não pede ajuda. Isso é tão comum... você vê os erros, sabe resolver, mas quem erra não tem interesse em ser ajudado. A verdade é que a primeira etapa para a melhora é sempre o reconhecimento do erro, baixar a crista. A solução vem da vontade de resolver, e aí, nesse instante uma mãozinha vem a calhar. Eu acho que no caso desse país o reconhecimento está demorando muito mais do que devia.






10 comentários:

Percy disse...

Caro Zappi,

Eu dei uma olhada no livro que vc sugeriu e já encomendei lá na Amazon. Pela amostra que eu li, deve ser interessantíssimo.
Obrigado.

Shirlei Horta disse...

Piorou, lamentavelmente. Agora, soma-se à arrogância o delírio de querer impor aos outros (aplica-se o termo aos EUA, China, "clube" dos 8 etc.) a nossa "sabedoria". Riem de nós em toda parte. Tenho vergonha. Muita gente tem vergonha. Lutamos, mas preferimos manter um anonimato em nome da vergonha que dá ser brasileiro hoje em dia. Tamos fu. Mas meu comentário não é retórico; acredito que há vida e inteligente para além dos fatos atuais.

ph disse...

Caríssimo:
"Física em seis lições" é excelente. Claro que é só parte dos famosos Lectures, mas dá uma boa idéia. Diz o folclore qye Feyman foi o melhor professor de física de que se teve notícia - o que pode ser uma injustiça, porque também foi ótimo pesquisador.
Obrigado pela visita. vou providenciar o link.
abraço
ph

zappi disse...

Não conhecia "Física em Seis lições", vou investigar. Eu tenho um CD que um amigo me deu com uma demonstração de Feynman re-criando a famosa demonstração de Newton que mostra que a proporcionalidade da força com o inverso do quadrado da distâncias é necessária para se obter órbitas elípticas. Acho que se chama "The motion of the planets around the Sun". É fantástica. Recomendo a todo mundo que gosta de Física.

Tambosi disse...

Cheguei aqui através do ph. Que belo post (aliás, bela matéria).
Quanto à educação, aqui no Bananão, tem razão a Shirlei: piorou barbaramente. Temos gente graduada que é analfabeta funcional..

Abs., TAmbosi

Zappi disse...

Graduados analfabetos funcionais são os mesmos que atacarão com todo a força tudo que tenha a ver com o saber. É que dói muito se sentir tão miseravelmente inferior.

Estranho, eu ouço a Marta Argerich tocando, sinto-me inferior, mas agradeço aos céus por ela ter nascido. Cada um tem um tipo de reação...

Obrigado pelo comentário.

Mikhail Askhalsa disse...

Eu particularmente admiro bastante o Feynman e já presenciei situações muito parecidas. Passei mais de uma hora lendo vários textos do seu blog ontem, e já estive na pele do seu personagem Fernando em vários casos (só que na faculdade de jornalismo). Tiro meu chapéu, sem dúvida.

zappi disse...

Olá Michail,

Bem vindo! Muitíssimo obrigado pelo comentário. O Fernando só existe porque fiquei chocado com a falta de resposta de colegas em situações semelhantes. Parece que os alunos só se UNEm (hehehe) quando é para fazer menos, e nunca para fazer mais. O discurso de Feynman na formatura da PUC-Rio (foi lá que puseram o coitado) deve ter sido apagado da memória da escola, mas por sorte Feynman deixou registrada a história em seu livro. Agradeço muito a divulgação em seu blog. Um abraço,
Zappi

Marcelo disse...

Bobeei. Escrevi sob o pseudônimo que uso no Cabide, pra facilitar a identificação. Mas sou o Marcelo Soares (o pseudônimo é fruto de uma história digna do Fernando, mas não vem ao caso). Tenho outro blog, no trabalho, que vale mais a pena visitar do que o Cabide. Veja lá: http://deunojornal.zip.net

Aluizio Amorim disse...

Caro Zappi,

grato pela visita. Seu post realmente está ótimo. Feynman foi um gênio, tenho dele Física em seis lições, que é magistral, ainda que seja apenas uma pontinha de sua produção acadêmica e científica. Caracterizou-se por ensinar a física tomando exemplos do nosso cotidiano.
Cordial abraço do

Aluízio Amorim
http://oquepensaaluizio.zip.net