2006-12-23

Agora, falemos de gente que presta

Cada vez que eu falo de alguma personalidade deplorável, como falei do padre Marcelo, bispa Sônia e Lula no último post, sinto culpa. Para compensar vou falar hoje de gente de valor, não quero ficar bombardeando meus leitores com tanto lixo...

Hoje vou falar sobre uma descoberta feita em 1896 que mudou os rumos das ciências e forneceu inesperadas ferramentas para entender mistérios profundos. Antes desse ano não era possível saber o que fornecia a energia necessária para o sol brilhar, não havia como explicar, existiam muitas teorias, todas erradas ou incompletas.

Conto a história. Um ano antes, em 1895, meio por acaso, Wilhelm Roentgen havia descoberto um tipo de luz muito especial que atravessava o corpo humano. Esta descoberta mudou para sempre a medicina, culminando na moderna tomografia. A excitação da comunidade científica ante esta descoberta maravilhosa aguçou a imaginação de todos os cientistas do mundo que procuravam outras fontes para os misteriosos raios "X".

Trabalhando em seu laboratório, Rutherford fazia uma experiência para verificar se as substâncias fluorescentes e fosforescentes tinham a capacidade de gerar raios X além de luz visível. Para quem não sabe, fosforescência é a capacidade que certas substâncias tem de emitir luz após ser expostas a uma fonte de luz forte. Assim os interruptores com tintas fosforescentes continuam a brilhar no escuro para que os possamos achar no meio da noite. Bom, Rutherford estava testando essas substâncias, expondo-as à luz do sol e depois colocando-as sobre uma placa fotográfica coberta com papel preto. A fotografia também era uma tecnologia nova, e sabia-se que os raios X eram capazes de atravessar papel opaco, impressionando os filmes.

Quis a sorte que uma das substâncias que Rutherford estava testando fosse um minério de urânio. No dia em que queria realizar o experimento, acabou por desistir após constatar que estava nublado. Guardou o minério em uma gaveta, apoiado sobre o envelope com filme e deixou-o ali por um tempo.

Passadas algumas semanas, Rutherford revelou a placa, mas não esperava ver nada nela. Ficou espantado quando viu que o filme estava impressionado com uma misteriosa aura que parecia emanar da pedra de minério. Repetiu a experiência com e sem luz... sempre acontecia a mesma coisa.

Alguma energia estava sendo liberada continuamente pelo minério de urânio: fora descoberta a radioatividade, um fenômeno natural que era totalmente desconhecido até então. Esta descoberta gerou uma revolução nas ciências, o seu estudo permitiu explicar a fonte de energia do sol, permitiu o desenvolvimento de marcadores radioativos que ajudaram a desvendar mistérios dos processos bioquímicos, possibilitou datar objetos antigos e até a calcular a idade da terra e de fósseis com bastante precisão.

A partir dessa momento fatídico em 1896, muito trabalho foi feito. A descoberta do elemento químico radioativo Radium pela cientista francesa Mme Curie gerou ainda mais entusiasmo: havia agora uma substância radioativa centenas de milhares de vezes mais poderosa que o minério de urânio original de Rutherford. A história destas conquistas é magistralmente narrada no livro "The interpretation of Radium" de Fr. Soddy.

Encontrei-me com o livro por acaso, tinha sido comprado por meu avô em uma edição traduzida para o francês de 1926. É apaixonante lê-lo. Soddy sabe que está fazendo parte de uma revolução no conhecimento humano, descreve os pormenores de experimentos e as conseqüências incríveis de alguns resultados. A descoberta da radioatividade foi mais uma impressionante evidência a favor da teoria atômica, permitindo testar aspectos desta antes totalmente desconhecidos. Se quiserem passear pelo início do século vinte, junto com alguém que conheceu todas as personalidades mais marcantes da ciência nessa época, comprem o livro clicando aqui ou na capa do livro abaixo. Foram pessoas de verdade, não hipócritas mentirosos e aproveitadores. Satisfação garantida!



Um outro livro que conta a história de maneira muito didática é "Our friend the Atom". Apesar de parecer um livro infantil, não é. As ilustrações são de Walt Disney mas o texto é científicamente correto. Este livro é um primor da divulgação de ciência, muito mais fácil de ler do que o livro de Soddy e pode ser comprado clicando na capa abaixo. Eu até recomendaria a leitura deste antes do de Soddy.




5 comentários:

Tambosi disse...

Belo texto, Zappi.

Está tão bom que lamentei que terminasse logo...

Abs.

Boas Festas

Orlando Tambosi disse...

Vi as transformações da página. Dá muito trabalho a migração? Dá pra salvar a template do blog velho e migrar para o novo?
Já pensei em fazer isto, mas...

Outra pergunta: como é que se faz a tal lojinha (também sou afiliado da Amazon, mas, por aqui, pouca gente compra, naturalmente porque custa caro, dado nossos salários de Acamapamento).

Abração e boas festas (soltei um post agora, aos crentes e descrentes).

Santa disse...

Zappi

"Feliz Natal a quem acorda, todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicção. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro quem odeia.

Feliz Natal a todos os que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da História. E aos que suprimem a letra erre do verbo amar e se recusam a ser reféns do pessimismo"

Feliz Natal,bjs

Anônimo disse...

Suas indicações literárias me causam grande curiosidade em adquirir tais livros, mas confesso que meu inglês é básico, o que dificultaria bastante ter acesso a estes conhecimentos. Onde posso encontrar esses exemplares em versão em português?

Zappi disse...

Caro anonymous,

Infelizmente eu não conheço nenhuma tradução dos livros que menciono neste post. Entretanto, há um livro em português chamado Tio Tungstênio (clique aqui para comprar na cultura que pode servir para começar a explorar o fantástico mundo da ciência. De qualquer forma, mesmo com conhecimentos básicos de inglês, o livro "Our friend the atom" pode ser lido com auxílio de um dicionário e essa é talvez a melhor maneira de começar a entender a língua escrita, é até melhor que um curso, de certa maneira.

Um abraço e boa sorte