2008-10-18

Tarde de domingo

Não sei se foi o vinho que tomei no almoço.

A sensação de que eu sabia o que queria, de que eu alcançava os meus objetivos era clara como nunca. Se normalmente não sabia o que perseguir ou como chegar lá, hoje a satisfação era perfeita, ou quase. Eu sabia ou achava que sabia...

Não sei se foram as nuvens espessas e cinzentas.

Os raciocínios complexos tornavam-se simples, conseguia ver ao longe as conseqüências de minhas ações; os meus desejos, rapidamente e um após o outro, tornavam-se realidade. Podia ver a beleza da previsão cumprida. Ilusão? Tinha a certeza de que não era.

Não sei se foi a luz do sol intercalada por sombras escuras.

Mas nada era melhor do que saber o que se queria e o que não se queria, uma certeza profunda do melhor caminho, um encontro definitivo que parecia o verdadeiro, o derradeiro. Um momento fugaz, irreproduzível? Tinha a certeza de que não era.

Não sei se foi o vento assoviando na janela.

Sentia um terno aquecimento, uma feliz completude. Uma sensação de juventude eterna. Uma vontade de não me mexer dali. De aproveitar o momento até quando fosse possível. O momento. A perfeita mistura de sonho e realidade.

Não sei se foram os sons da cidade, que atravessavaram o quarto.

Eram reconfortantes sensações de que tudo estava em seu lugar, em seu movimento constante em direção ao progresso, rumo a um mundo melhor. Nem precisava pensar: sabia o que faria. Tudo finalmente estava claro.

Não sei se foram os prédios molhados, cinzentos e escuros.

Mas o brilho do sol não se perdia. O sol estava ali, dentro de mim. Já adivinhava o futuro. Eu sabia o que aconteceria, segundo após segundo. O mundo desfilava na minha frente como se seguisse minhas ordens, meus desejos. Eu já não tinha dúvidas de que esse momento fantástico não era um momento. Era a própria vida, a eternidade.

Não sei se foi o passarinho que cantou.

Entretanto, em minha imponente clarividência, eu sabia o que aconteceria. Eu sabia que ela abriria os olhos. Sabia que voltaria do seu mundo dos sonhos, me olharia com seus doces e profundos olhos como se me visse pela primeira vez, sorriria suavemente e me diria com aquela sua voz inconfundível e sonolenta, como se tivesse se surpreendido em me ver ali:

"Olá, Paulo".





Um comentário:

Minás disse...

FRENTE/VERSO

Minás Kuyumjian Neto

Foi quando um bem-te-vi piou que acordei do lado de lá. Havia dormido normalmente na noite anterior, depois de ler mais um ca-pítulo do livro. Só isso: nenhum sonho especial, sem pesadelos, nada de insônia ou qualquer desconforto. O sono durou o que dura quase sempre o sono – algumas horas de fingida morte.
Era cedo. Desperto, fiquei ouvindo as paredes silenciosas e os móveis inertes e as luzes apagadas – mas também o pássaro, insis-tente e inconsciente do que fazia. Notei que tudo estava em seus devidos lugares. Mas havia algo estranho. Nada visível, identificável, real. Não. Era algo assim como uma premonição consubstanciada, uma geléia iridescente, um lapso na sequência temporal do instante: de alguma forma, eu sabia que havia acordado do lado de lá.
O bem-te-vi parou de piar. Levantei-me vagarosamente e observei que pelas venezianas da janela a luz ainda azulada se infiltrava normalmente. Fiquei sentado na cama, à escuta. Aparentemente, nada havia mudado. Da cozinha vinha o zumbido da geladeira; de fora, os barulhos normais da rua: o motor de um carro, o zumbido da cidade ainda semi-adormecida. Olhei o relógio: seis horas e quarenta e dois minutos.
Sabia que não estava mais do lado de cá, mas não compreen-dia como é que eu sabia que não. Sem transição, susto, medo ou efeitos colaterais, eu estava do lado de lá. O que significava isso? Não tive a menor idéia. Só sei que – numa fração de segundo – cheguei a questionar: que diabos seriam os lados de lá e de cá? Morte e vida não, é claro, pois eu estava vivo – inquestionavelmente vivo. Triste ou alegre também não, porque o momento era alheio a qualquer tipo de sentimento. Estressado, tranquilo, feliz, infeliz, eufórico, agoniado, bem-disposto, cansado, verdadeiro, falso? Não. Não era nada disso. A fração de segundo passou. Voltei ao normal, sem sentir absolutamente nada. Apenas a certeza cristalina de que havia despertado do outro lado.
Levantei-me da cama com inútil mas apropriada cautela: por alguma razão era preciso respeitar o momento. Fui à cozinha, abasteci a cafeteira e liguei. Enquanto o café se fazia, passeei pela sala conferindo tudo. Nada além do de sempre: a tevê muda, a revista aberta sobre o sofá, dois copos e um prato com migalhas na mesa-de-centro, cinzas e bitucas no cinzeiro. Mas, apesar de tudo, eu não estava mais do lado de cá: estava do lado de lá. Tinha plena consciência de que um lado não exclui o outro – porque a rigor nada havia mudado. Eu tinha apenas acordado antes da hora num domingo como qualquer outro, sem horários nem nada para fazer, e precisava simplesmente pactuar com o silêncio da hora, tomar um café quente e esperar que repentinamente o dia começasse.
Na cozinha, a cafeteira soluçou como faz sempre que o café está pronto. Servi-me de uma xícara grande e comecei a beber devagar. Voltei à sala e olhei pela janela: nada demais. O pequeno jardim com as folhagens, a mureta, a rua deserta. Senti o tênue frio daquela hora e pensei em sair para respirar um pouco daquele ar rarefeito da manhã.
Ao abrir a porta, dei um passo para fora e parei – o café fume-gante na xícara. As rosas vermelhas estavam azuis, as folhagens verdes eram vermelhas, a mureta amarelada parecia verde, as cal-çadas roxas, o asfalto amarelo. Recuei e fechei a porta. Voltei à janela e olhei: as rosas vermelhas, a mureta amarelada, as calçadas cinzentas, o asfalto quase negro. Suspirei resignado: isso queria dizer apenas que há dois lados. O de lá e o de cá.
Bebi meu café e esperei. Então, repentinamente, o dia come-çou.

20/6/99