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2008-10-18

Tarde de domingo

Não sei se foi o vinho que tomei no almoço.

A sensação de que eu sabia o que queria, de que eu alcançava os meus objetivos era clara como nunca. Se normalmente não sabia o que perseguir ou como chegar lá, hoje a satisfação era perfeita, ou quase. Eu sabia ou achava que sabia...

Não sei se foram as nuvens espessas e cinzentas.

Os raciocínios complexos tornavam-se simples, conseguia ver ao longe as conseqüências de minhas ações; os meus desejos, rapidamente e um após o outro, tornavam-se realidade. Podia ver a beleza da previsão cumprida. Ilusão? Tinha a certeza de que não era.

Não sei se foi a luz do sol intercalada por sombras escuras.

Mas nada era melhor do que saber o que se queria e o que não se queria, uma certeza profunda do melhor caminho, um encontro definitivo que parecia o verdadeiro, o derradeiro. Um momento fugaz, irreproduzível? Tinha a certeza de que não era.

Não sei se foi o vento assoviando na janela.

Sentia um terno aquecimento, uma feliz completude. Uma sensação de juventude eterna. Uma vontade de não me mexer dali. De aproveitar o momento até quando fosse possível. O momento. A perfeita mistura de sonho e realidade.

Não sei se foram os sons da cidade, que atravessavaram o quarto.

Eram reconfortantes sensações de que tudo estava em seu lugar, em seu movimento constante em direção ao progresso, rumo a um mundo melhor. Nem precisava pensar: sabia o que faria. Tudo finalmente estava claro.

Não sei se foram os prédios molhados, cinzentos e escuros.

Mas o brilho do sol não se perdia. O sol estava ali, dentro de mim. Já adivinhava o futuro. Eu sabia o que aconteceria, segundo após segundo. O mundo desfilava na minha frente como se seguisse minhas ordens, meus desejos. Eu já não tinha dúvidas de que esse momento fantástico não era um momento. Era a própria vida, a eternidade.

Não sei se foi o passarinho que cantou.

Entretanto, em minha imponente clarividência, eu sabia o que aconteceria. Eu sabia que ela abriria os olhos. Sabia que voltaria do seu mundo dos sonhos, me olharia com seus doces e profundos olhos como se me visse pela primeira vez, sorriria suavemente e me diria com aquela sua voz inconfundível e sonolenta, como se tivesse se surpreendido em me ver ali:

"Olá, Paulo".





2007-07-31

Luzes de natal

Às vezes quando passeamos, a mente divaga sozinha, solta e livre. Quando menos esperamos, alguma conexão misteriosa se forma e sentimos o prazer indescritível da iluminação: aprendemos algo. Já lhes aconteceu?

A paisagem misteriosa e gelada da ilha sul da Nova Zelândia deve ter contribuído. Florestas, campos e estranhas névoas se alternam com surpreendentes montanhas e precipícios a cada curva da estrada. As subidas e descidas nas montanhas são acompanhadas de mudanças de temperatura e alguns lagos mais altos têm um pouco de gelo às margens, como placas de vidro.

Tropicais que somos, estamos desacostumados com a linha de gelo e neve que aparece, precisa, a uma certa altura das montanhas, tornando fantasmagórica a paisagem à medida que subimos. Ao mesmo tempo o gelo não é só gelo: diferentes formas de geada e neve, orvalho congelado e cristais que crescem diretamente nos galhos, neve derretida e recongelada e estalactites de gelo fazem com que cada dia do inverno pareça completamente diferente, cada lugar mude a ponto de não os reconhecermos mais.

Foi depois de uma curva, quando encontrei uma floresta de árvores sem folhas, cobertas por cristais de gelo. O sol iluminava a paisagem e os cristais refletiam lampejos prateados em forma de pontos minúsculos, que acendiam e apagavam à medida que nos movimentávamos. Eram milhares, distribuidos perfeitamente ao acaso, fizeram-me pensar que as luzinhas de natal não passavam de uma patética tentativa de simular esta maravilha que ocorre naturalmente, sem intervenção humana.

Então, quando já me deliciava com esse pensamento, algo ainda mais impressionante aparece diante de meus olhos. Em uma parte dessa floresta, que era iluminada de raspão pela luz do sol, os lampejos, minúsculos, brilhantes, milhares deles em cada árvore, passaram a ser coloridos. A luz se decompunha nos cristais e as cores variavam totalmente ao acaso. Lampejos roxos, azuis, verdes, amarelos, laranja e vermelhos sucediam-se em velocidade que variava com a velocidade com que andávamos.

Eureka! - pensei, é daí que veio a idéia das luzes coloridas de natal!

A diferença é que as luzes de natal, por mais bem colocadas e cuidadas, por mais ajustadas à decoração, jamais poderiam chegar perto da maravilha que é ver a versão original nas montanhas, rodeado de silêncio e neve.

2007-06-17

O baixinho de óculos

Esta eu surrupiei do genial blog do Magenco (clique aqui para ler mais).

O BAIXINHO DE ÓCULOS


Tarde de sábado. Quando a criança chegou, o pediatra de plantão logo sentiu que se tratava de uma emergência de verdade. A história clínica, colhida apressadamente, era típica: brincando com grãos de feijão espalhados pelo assoalho da casa, ela tivera um súbito acesso de tosse, "se engasgara, ficara roxinha", e, a partir desse momento, a respiração se tornara cada vez mais difícil. A princípio, a mãe não se assustou...; "devia ser mais uma daquelas crises de asma...; a pequena estava resfriadinha, e ela já estava acostumada"... Aplicou a "bombinha", como sempre fazia, e nada... Aí, começou a ficar preocupada e resolveu correr ao hospital.

O exame físico mostrou que o pulmão direito não estava respirando..., e o esquerdo, com broncospasmo, era o que, mal e mal, sustinha aquele fiapo de vida. Feito às pressas, o RX confirmou a suspeita diagnóstica: corpo estranho no pulmão direito. Devia ser um daqueles grãos de feijão. Impunha-se chamar o otorrino-endoscopista de sobreaviso e o anestesista de plantão, além de mandar preparar imediatamente o centro cirúrgico.

Realizada - com grande risco anestésico - a broncoscopia inadiável, a caprichosa semente foi removida a tempo, e aquele pulmãozinho, de apenas 2 anos, expandiu-se de imediato: a criança estava salva!

Os pais, que aguardavam na ante-sala do centro cirúrgico, foram logo informados, e a mãe, aliviada da tremenda tensão, pôs-se a chorar de alegria, numa copiosa catarse de emoções contidas.

Diálogo pós-operatório:


- Doutor, era feijão mesmo?

- Era, sim, senhora.

- E onde está?

- Aqui, veja! - O médico, ainda paramentado, de avental, gorro e máscara, apresentou o feijão - inchado, mas inteirinho - que se destacava, ainda úmido e brilhante, no centro de um pedaço de gaze.

- Posso ficar com ele?

- Claro! Leve e mostre às suas vizinhas. E diga, a todas elas, que criança pequena não deve ser deixada sozinha, brincando com essas coisinhas miúdas...; é muito perigoso. Como a senhora viu..., sua filhinha quase morreu... - acrescentou.

A recomendação, feita em tom de velada reprimenda, deve ter alcançado seu objetivo, a julgar pelo comentário sincero e contrito que sobreveio, quando ela exclamou, com o fervor habitual das pessoas simples:

- O senhor tem razão. Graças a Deus!...

A eterna vice-liderança:

O doutorzinho, que fora tirado da cama num sábado de tarde, quando digeria profundamente sua tradicional feijoada semanal...; que nunca seria condignamente remunerado pelo trabalho de alta qualidade que acabara de realizar..., resolveu, mais uma vez, assumir humildemente seu eterno anonimato.

No caminho de volta para casa, ao volante do seu modesto Gordini, vinha, entretanto, pensando:

"É engraçado... Quando tudo corre bem, é ‘Graças a Deus’... Eu até não me incomodo de dividir o mérito com Ele..., mas..., e quando corre mal? Aí..., o único culpado sou eu... Será que isso é justo?... E no dia seguinte, ainda estou sujeito a virar manchete de jornal: ERRO MÉDICO MATA CRIANÇA DE 2 ANOS!... Mas deixa pra lá!... Vida de médico é assim mesmo"...

Já em casa..., resignado, pois não era a primeira vez – e sabia que não seria a última – não conseguiu furtar-se ao lamento inconformado:

"Se ela, ao menos, tivesse tido a curiosidade, ou a delicadeza, de perguntar o meu nome..."

Desdobramentos e conseqüências:

Mal desconfiaria ele que, meses depois, repetindo pela centésima vez a mesma história diante de uma visita, ela se surpreendia com uma pergunta que, até então, ninguém lhe havia dirigido:

- Quem foi o médico que salvou a sua filha?

- A senhora há de acreditar que eu não sei? Vou perguntar ao meu marido... Espere só um instante... Juvenal!!!... Oh, Juvenal!!... Vem cá!

Passado um minuto, sacudindo na palma da mão o cachimbo apagado, o Juvenal, alto como um vara-pau, chega à sala, caminhando com passos indolentes:

- Que é? - pergunta, aborrecido.

- Juvenal, Como era mesmo o nome daquele doutor?

- Que doutor, mulher? - replica ele, amuado.

- Aquele que tirou o feijão do peitinho da Joana?

- Ah, não sei..., só me lembro que era um baixinho de óculos...

Sua expressão de perplexidade era visível, quando girou nos calcanhares e, com o mesmo andar pachorrento, voltou a escarrapachar-se na rede estendida à sombra entre duas goiabeiras, onde, acendendo novamente o cachimbo, pôs-se a dar baforadas com o olhar vagando à toa, enquanto, a contragosto, cismava lá com os seus botões:

- Por que diabo ela queria, agora, saber o nome do raio do médico? Que interessa isso?... O importante é que a Joaninha está viva, ora bolas!...

E, aliviado com esta definitiva e admirável dedução, ficou a resmungar coisas sem nexo, como se uma bruma espessa lhe cobrisse a mente, escondendo no nascedouro as idéias fugidias que teimosamente procurava fixar.

Enquanto isso, bem à sua frente, sentadinha no chão, inocente e dando risadinhas, a pequena brincava com os grãos de milho que as galinhas bicavam a seu redor...

E ele olhava, indiferente.

Moral da história:

Se acontecesse tudo de novo, era só levá-la ao hospital...; 'o baixinho de óculos' certamente estaria lá pra quebrar o galho... e, se não estivesse..., ‘outro qualquer estaria’...

Subitamente exausto de tão laboriosas conjeturas, tratou de apagar o cachimbo e, fechando os olhos, inebriado com aquela paz de espírito que é privilégio apenas dos simples que foram bafejados com o dom da certeza absoluta, deixou-se placidamente embalar com o pio da galinhada.

E mergulhou em sono profundo...


Mario Gentil Costa


2007-05-24

Ocupação da USP e historinha

De repente, por conta da ocupação da reitoria da USP pelos alunos vagabundos, esta história que escrevi faz um tempinho voltou a fazer sucesso. Sabe como é, não era para dizer... mas é um fato verídico. Aconteceu, imaginem vocês, na USP.

Se é para se mobilizar, que seja para melhorar alguma coisa e não para piorar. Regrinha simples, né?

2007-04-23

País pobre, país rico

Era uma vez um país rico que insistia em subjugar um país pobre.

Era uma situação muito difícil para o país rico. Havia que gastar muito dinheiro mantendo violentas ditaduras militares de extrema direita. O custo político era altíssimo: manifestações de esquerdistas paravam as ruas do país rico com frases como "Liberdade para Pobrelândia" ou "Fim da dominação imperialista", e por aí vai.

A vida também não era nada fácil no país pobre. Havia uma oposição clandestina contra os militares, cada vez havia mais revolta e greves. Os militares agüentavam firme, mas necessitavam cada vez mais auxílio militar do país rico. Este auxílio era pago regiamente com minérios e diamantes, trocados por armamentos e tanques anti-motim. Em um esforço para tentar conter a intranqüilidade e livrar-se dos opositores, o regime militar criou um slogan "Pobrelândia, ame-a ou deixe-a!" e outro "Pra frente pobrelândia", mas nada adiantava.

Pobrelândia estava saindo muito cara para o país rico. Os militares exigiam cada vez mais pelos diamantes e minérios, chegou ao ponto em que não valia mais a pena gastar dinheiro nesse país idiota.

Foi aí que os eventos tomaram um rumo surpreendente: exatamente quando o país rico estava decidindo deixar os militares de Pobrelândia minguar à própria sorte, um representante do Partido Revolucionário Trabalhador de Pobrelândia (PRTP) solicitou uma audiência com o presidente do país rico. Este, que não era tonto nem nada, mandou em seu lugar o terceiro suplente do assessor do segundo adido militar, acompanhado de artilharia pesada e centenas de soldados e guarda-costas.

A proposta revelou-se interessante: o PRTP ou Partidão Pobretão, como era popularmente chamado, propunha auxílio para uma "transição democrática" e grana para eleger como presidente o Truculento Mulla, um sindicalista conhecido por acordos obscuros com patrões. Em troca, Truculento Mulla e o Partidão Pobretão venderiam as riquezas de Pobrelândia a preços muito mais camaradas que os milicos, além de destruir a oposição utilizando um método novo: o emburrecimento geral, um método muito mais eficiente e barato que os métodos tôscos e violentos dos milicos.

Um acordo verbal foi conseguido. Truculento Mulla sabia tudo sobre truculência. Era claro que o acordo não valia nada, mas o serviço secreto do país rico iria exterminá-lo e a toda a sua família se ele não cumprisse adequadamente a sua parte. Truculento Mulla não estava blefando, entretanto. Sabia perfeitamente que, se destruísse a economia de Pobrelândia, sobraria mais para ele e para os de seu Partidão Pobretão.

Simulando anti-imperialismo, ganhou os corações dos esquerdistas do país rico, que não entendiam nada do que estava acontecendo na realidade. O presidente do país rico disse que "não tolerariam regimes anti-democráticos" e forçaram os milicos a sair do país pobre. Truculento Mulla iniciou a sua campanha de destruição da classe média e de emburrecimento compulsório. Mediante pagamentos de subornos extremamente módicos, o país rico ganhou acesso irrestrito às riquezas de Pobrelândia e nunca mais enfrentou oposição interna. Nunca antes nesses países havia exisitido um acordo tão vantajoso para ambas as partes, o país rico e o PRTB, ou Partido Revolucionário Trabalhador de Pobrelândia, que insistia sempre ser chamado Partidão Pobretão, ainda que de pobre tivesse agora somente uma fina camada exterior, só para Inglês ver.

2007-03-02

História do Brasil


São Paulo, 15 de Fevereiro de 2039. Joãozinho estava tendo problemas com os deveres de casa. A professora queria que ele escrevesse uma dissertação sobre o período das "Guerras da Ignorância", mas nada parecia fazer sentido. Pede então ajuda da mãe, que explica:

-Joãozinho, as "Guerras da Ignorância" foram um terrível período da História do Brasil.

-Mas mãe, guerra de quem contra quem?

-Entendo a sua confusão, João, inicialmente ninguém entendia o que estava acontecendo. As mortes se sucediam, a explicação oficial era sempre de que eram ataques de "bandidos comuns" como dizia o governo. As pessoas não entendiam, morreram milhões de pessoas ao longo de 20 anos. Quando o governo do PT entrou no poder, ficou bem claro que o governo estava apoiando os tais dos "bandidos comuns", soltando-os na rua para que fossem matar policiais e pessoas comuns.

-Mas policiais? Eles não trabalham para o governo, mãe?

-Sim João, mas eles trabalhavam para governos estaduais e o PT era federal. A guerra ficava mascarada: o governo Federal nunca assumia que estava incentivando o crime, continuava concedendo indultos e mantendo uma rede de celulares nos presídios. Gritavam que a culpa das mortes era das vítimas, e não dos assassinos. Ficou totalmente claro quando o Lula vetou as reformas que aumentariam as penas. Naquela época um assassino era preso e saía livre em 2 anos. Quando foi esclarecido o caso Celso Daniel ficaram nítidas as conexões entre o PT e os criminosos.

-Desse eu lembro, mãe.

-Pois é, filho.

-Acho que entendi, já dá para fazer a dissertação. O que tem para jantar?

-Pizza

-Mãe, como é que eles diziam quando os criminosos não iam presos?

-"Termina em pizza"

-Acho que vou usar isso também

-Muito bem, você entendeu direitinho filhão...


2007-02-06

Volta ao mundo de Taxi - 1 Sampa

Estava atrasado, o céu estava cinzento, ia chover. Que sorte, consegui um táxi! Uma vez dentro do taxi, percebi: o motorista era um senhor muito velhinho, dirigia bem devagarinho... Pensei "O jeito é relaxar, não vou trocar de táxi agora..."

Ele puxa papo, eu respondo. Imediatamente noto que ele tem forte sotaque espanhol e troco de idioma. Ele era boliviano. Um par de bate-bolas depois ele me pergunta:

-Você é casado?

-Sou.

-Agora vou fazer uma pergunta mais pessoal, por favor não me leve a mal, mas é que estou fazendo uma pesquisa sobre um assunto que descobri...

-Pode mandar...

-Eu quero saber se você pudesse rebobinar o tempo, teria ido em frente? Ou seja, teria casado com a sua mulher novamente? Por favor seja sincero na resposta.

Verdadeiramente era pessoal... aonde o velhinho queria chegar? Respondo:

-Casaria novamente com toda a certeza.

-Interessante... você sabe qual é a resposta mais comum que recebo?

-Qual?

-Que não teriam ido em frente. Que não teriam se casado de novo com a mesma pessoa. Você já é um caso incomum...

O que era agora? Ele estava duvidando de mim? Ele continua:

-Não me leve a mal. Eu fui casado quatro vezes e tenho 85 anos...

Pudera! Era por isso que ele dirigia tão devagar...

-... e acho que fiz uma descoberta que quero comunicar ao mundo. Somente um dos meus casamentos deu certo, e acho que descobri o que é necessário para que um casamento dê certo... quero dizer, para que marido e mulher fiquem juntos por muito tempo, felizes. Porque um casamento pode funcionar por um certo tempo, mas aí a situação fica complicada e... Pode até durar muito tempo mas com o casal se aturando, em vez de se gostando... O que eu quero dizer é que eu sei quais as condições para que dê mesmo certo, e são quatro.

Isto estava ficando interessante... realmente muito interessante. Pergunto:

-E quais são?

-Primeira: Dinheiro. Mas não me refiro a grandes somas de dinheiro, e sim dinheiro suficiente para morar, comer, vestir, educar os filhos... realmente acho que grande quantidade de dinheiro pode ser até prejudicial, mas sem dinheiro todos os casamentos vão por água abaixo eventualmente, por mais que o casal se goste.

-Acho bem razoável... Qual é a segunda?

-Segunda: Diálogo. Me refiro aqui àquela conversa que o marido e a mulher tem na hora do jantar, o marido conta o seu dia, a mulher também, eles se escutam. Expõe os seus problemas e dificuldades para o outro... Acho que este é o ítem que mais frequentemente falha. Coloco a culpa na televisão, na novela, todo mundo grudado na TV... Para este diálogo ocorrer tem que haver tempo, as pessoas tem que ter tempo para elaborar suas idéias, incertezas. Conversar não é tão fácil assim, e está se tornando uma arte em extinção. Acredito que este diálogo é o que faz com que o marido e a mulher se entendam e vão para o mesmo lado, é o que faz com que um colabore com o outro. Quando o diálogo falha, as mentes vão por caminhos divergentes e eventualmente não há mais conversa possível...

-Muito bom... que mais?

-Terceira: Classe. Quero dizer: o marido e a mulher devem ser de níveis socio-culturais próximos.

-Não entendo...

-Esta talvez é a mais difícil. Pela minha experiência, o que acontece é que muitos casamentos ocorrem entre pessoas com significativas diferenças socio-culturais. O problema que acontece é que ao longo do tempo, a parte do casal que vem de um nível mais baixo fatalmente desenvolve um complexo de inferioridade que é quase impossível de extinguir. Por mais que a outra parte compreenda ou tente ajudar, o complexo está ali, latente, e à medida que o tempo passa vai degenerando a relação até o ponto de insustentabilidade... Quando eles provêem do mesmo nível socio cultural há uma identidade de interesses, valores... De qualquer maneira a imposição de valores diferentes é uma violência que acaba destruindo a relação... mas o elo sempre rompe no lado mais fraco.

Penso: esta é sutil, mas acho que o taxista está certo... Acho que sei qual é a quarta... Ele se vira, pisca o olho e me diz:

-Não preciso explicar a quarta, preciso?

-Não...

Ele continua:
-Os casamentos só dão verdadeiramente certo quando estas quatro condições são verdadeiras. Se uma, apenas uma falhar, o casamento está condenado. Entretanto já vi casamentos que se baseavam em somente uma delas. Muitos e muitos... mas eles sempre falham. Quando não falham acontece aquilo: o casal se suporta por anos e anos... Agora que lhe contei, pode me dizer sinceramente... Vocês dois cumprem as quatro
condições?

Este velhinho era fogo... pensei longamente... não é que cumpríamos mesmo?

-Você tem muita sorte – ele diz – muita sorte mesmo. Isso é muito raro...

Conversamos muito. Ele dirigia tão devagar... perdi a minha reunião, mas não me importava mais. Ele me conta muitos detalhes de sua longa vida... eu pergunto:

-Já pensou em escrever um livro?

Ele dá uma risada e diz:

-Já... queria que se chamasse "Memórias de um Motorista de Praça"... ainda vou escrever...

Já tinha começado a chover, São Paulo estava triste e cinzenta. Dentro do taxi entretanto, o sol brilhava com toda a força.



2007-01-02

Natal com a família

Despediu-se dos amigos que o deixaram na rodoviária. Tinham ido ao cinema, tomado cerveja, discutido política de bar em bar no Rio. Ele sempre achara o Rio muito estranho. Quando chegava, se ninguém o esperasse na rodoviária, costumava tomar um ônibus até o Leblon. Os morros cobertos de verde o faziam pensar em um cheiro de mato, uma chuva morna lavando a alma da noite. Ao mesmo tempo era cidade, era parque, eram velhos edifícios sem muita convicção de estilo. Ora opressivos edifícios públicos, ora simpáticos apartamentos com terraço que o faziam lembrar de algum lugar na Europa... Não, o calor era diferente, o cheiro do Rio era muito diferente de qualquer outro lugar. Quando chovia então? Aquela chuva abundante, generosa, as brumas de Copacabana ao amanhecer, a Lagoa. O Rio era espetacular, mas o era de um modo sempre imprevisível. Um passeio e, inesperada, a pedra da Gávea. Outro passeio, e o Corcovado. O MAM. O Jardim Botânico. URCA.

O Rio também era feio, de um modo escuro, quente e húmido. Nas sombras de prédios do centro, os engraxates e os barbeiros, as pessoas sem o que fazer, os mendigos sujos. O calor, que parecia queimar a pele, o fazia querer que chovesse, o obrigava a gostar da chuva do Rio. Mas se formos falar de feiúra, nada superava a favela. Alegremente ignorada pelos cariocas, de lá vinham faxineiras, porteiros, cozinheiras gordas e negras, que teimavam em sorrir sempre. Empregadas e taxistas, pintores e eletricistas, cada um tinha algum canto no morro. Em um passo, de um lugar riquíssimo chegava-se à miséria absoluta. Isso sim, com um sorriso de orelha a orelha. Tudo sempre parecia bem.

Essa noite, despediu-se dos amigos que o deixaram na rodoviária. Era a noite do dia 23. Queria passar o Natal com a família, em São Paulo. Notou então algo estranho. A rodoviária, que já não era o lugar mais bonito do mundo, estava escura e cheia de gente. Muito cheia. Descamisados, no calor da noite, faziam pensar em navios negreiros. Cheiro de suor e de xixi. Engoliu em seco e entrou, foi direto procurar os caixas para comprar uma passagem. Uma fila enorme e meia hora depois, uma senhora negra bonachona o atendeu. Não tinha lugar, o próximo era no ônibus extra das seis da manhã do dia seguinte. Seis da manhã? Não tem jeito? Não tinha. Já era tarde da noite, não valia a pena voltar para a cidade, o ônibus saía muito cedo. De que adiantava ir, dormir quatro horas e voltar correndo para a rodoviária? Comprou a passagem. Esperaria ali mesmo.

Não imaginava que a espera fosse tão longa e tenebrosa. Milhares, quase todos homens. Como ele, queriam passar o Natal com a família. Olhava ao redor, o cheiro só fazia piorar. Quanta gente e que fedor! Esse pessoal já tinha viajado dias sem tomar banho. Não sorriam, encaravam ameaçadores, pareciam marginais. Pensou que se caísse no sono, seria roubado. Tinha que ficar acordado, permanecer atento.

Havia policiais rondando pela estação. Cada vez que viam alguém caindo no sono, batiam com o cassetete nos bancos e gritavam, tomando todo mundo de sobressalto. O lugar parecia o Carandiru, era realmente deplorável. Os policiais riam, falavam alto.

As horas passavam devagar, decidiu sair andando pela estação. Desanimado, pensava que teria que ficar sentar do lado de algum marginal por mais seis ou sete horas no ônibus até São Paulo... quanto melhor não seria voltar para a praia... Não! Não adiantaria postergar, teria que voltar para São Paulo de alguma maneira, em algum momento. Tinha que ter paciência, controlar-se um pouco, agüentar firme.

Foi numa dessas voltas pela rodoviária que a viu. Parou de pensar em si por um momento, e pensou naquela moça, que parecia estar sozinha. Coitada! Ela estava sentada, rígida, com óculos escuros e ouvindo música em um walkman. Ficou observando, a situação dela era muito pior que a dele, afinal era moça e sozinha. Também devia ter ficado presa naquele lugar como ele, por acidente. Parecia-lhe que ela tentava se isolar do ambiente, pareciam inúteis os óculos escuros naquele lugar, de noite... faziam com que parecesse cega. Seria cega? - pensou, divertindo-se um pouco com a idéia. Observava-a de longe, um certo instinto fazia com que se preocupasse. Se algo lhe acontecesse ele sempre poderia chamar um policial, pedir ajuda. Esqueceu-se completamente de seu problema, tinha encontrado um assunto para pensar, para passar o tempo. Observava-lhe os movimentos. Ela olhou para o relógio, discretamente. Definitivamente, não era cega.

Ela realmente estava fora do lugar, naquele ambiente medonho. Um pensamento fugaz veio à sua mente, pensou como seria bom se ela se sentasse ao seu lado, no ônibus. Riu da idéia. Era impossível! Menos de uma chance em mil, estimava, confiante. Que pena, ela era a única com quem ele gostaria de estar nesse ônibus... a única dentre todos os milhares de pessoas dessa tenebrosa estação. Tirou a idéia da cabeça. Era inútil e ele sabia, mas essas idéias lhe ajudavam a passar o tempo. Como faria depois, durante as longas horas no ônibus?

Pensou em falar com ela, talvez ela gostasse de ter alguém para conversar, tiraria os óculos e... mas estava tão tensa, assustada. Decidiu não arriscar, talvez ela não gostasse da aproximação. Estava satisfeito por ter algo em que pensar e passar o tempo.

Os policiais faziam mais e mais barulho à medida que mais gente ia desmaiando de cansaço nos bancos. Era claro que eles faziam isso para evitar que todos os mendigos do Rio fossem dormir nesses bancos sujos e transformassem a rodoviária na casa deles.

Amanhecia finalmente. O seu ônibus estava para sair. Foi embarcar, desanimado com a idéia de ficar tanto tempo sentado até chegar em casa. Mais desanimado ainda se descobrisse que ao seu lado estava sentado algum descamisado mal-encarado...

Ao chegar ao seu assento marcado, ficou surpreso: do seu lado estava sentada a moça do walkman e dos óculos escuros. Continuava tensa e ele escondeu como pode sua satisfação. Disse algo como "com licença?" baixinho, ao que ela não respondeu. Não conseguia acreditar, as chances de se sentar com ela eram baixíssimas. Teriam os deuses ajudado? Existiriam anjos afinal?

Estava exausto, naturalmente. Ela também, talvez ainda mais por ter permanecido tensa durante toda a noite. O ônibus partiu ronronando, e para sua surpresa ela, sem dizer palavra, virou um pouco de lado e apoiou a cabeça em seu ombro. Ela adormeceu lindamente, enquanto ele controlava suas mãos que queriam segurá-la, protegê-la. Relaxou finalmente, sua cabeça apoiada na dela. Ficou nesse estado maravilhoso entre sono e realidade, perdendo momentos, ganhando sonhos. As horas fluíam como minutos, não queria que esse instante acabasse...

Foram pegos de surpresa. Quase cairam com a freada brusca. Não entendeu quando os marginais entraram e encharcaram tudo com gasolina. Ela gritou. O fogo veio de trás do ônibus, as pessoas se pisoteavam. De alguma maneira ele saiu a tempo, com o braço queimado, empurrado pela multidão. Caiu no chão, olhou para cima. Ainda viu a moça na janela, o ônibus queimava. Muito fogo, não havia como voltar. A moça já não estava na janela. Lembra-se de ter gritado, não parava de gritar. Assassinos. Assassinos malditos. Gritava desesperado, gritava sozinho.



2006-11-12

Insônia e scones

Meu pai dizia que sofria de insônia. Eu nunca sabia se ele estava brincando. É que eu nunca conheci alguém que tivesse tal facilidade para dormir. Quando estava cansado, acomodava-se, e em menos de um minuto estava dormindo. Era incrível ele dizer que tinha algum problema de sono...

Não me continha e perguntava, rindo:

"Insônia, você?"

"Todas as manhãs acordo às 5 da manhã e não consigo voltar a dormir."

"Mas a que horas você vai dormir?"

"Às dez."

"Por que não vai dormir mais tarde?"

"Não consigo. Às dez já estou cansado e quero dormir."

Não posso chamar de insônia o que meu pai tinha. Ele ia dormir com os passarinhos e com eles acordava. Nas manhãs silenciosas, ouvia-se muitas vezes o canto dos sabiás. Meu pai aproveitava esse horário especial para ler, estudar, fazer café da manhã, planejar o dia. Ele costumava fazer scones, que eu comia ainda quentinhos no café. Sempre ajustava o método, cada vez os fazia mais depressa e melhor. Modificava as proporções dos ingredientes, sempre experimentando... Coisa de químico...

Quando me mudei para a Austrália, quase em choque notei que há scones em quase todos os cafés. Claro, é uma receita inglesa. Nenhum, naturalmente, tinha o sabor dos do meu pai. Uma tarde, quando não havia ninguém em casa, decidi fazê-los, de acordo com a receita original que eu tinha daquela época, mais de 20 anos atrás. Até que não foi tão difícil... estes tem um sabor mais parecido, mas ainda falta algo. Meu pai sempre dizia que é necessário fazer a mesma receita 4 ou 5 vezes para realmente ter controle do que está acontecendo.

"Mesmo que a gente acerte na primeira, antes de repetir várias vezes não sabemos nada."

Fiz um café, enquanto saboreava os scones sozinho, pensativo. Um pássaro começa a cantar. Soava quase igual a um sabiá. Aqui em Melbourne? Era um "Blackbird" (Turdus merula), um pássaro europeu que é parente próximo do brasileiro (Turdus rufiventris). Os blackbirds entretanto não cantam só de madrugada, cantam o dia inteiro.

Fiquei quieto por um momento. Misteriosamente fui levado àquelas manhãs silenciosas de tanto tempo atrás. Eu saboreava cuidadosamente esse instante.

"Preciso aperfeiçoar os meus scones" - pensei.

2006-11-03

A cabeça no travesseiro

Um belo avião, um Airbus moderníssimo. Longa viagem, video para passar o tempo. Vários filmes bobos, um canal com 'pegadinhas' de uma emissora canadense. Estou cansado, quero dormir. O canal de áudio de música clássica volta ao início depois de duas horas, não quero ficar ouvindo tudo repetido... lembro de um vôo para a Europa, quando tinha 17 anos, a "overture 1812" repetiu os tiros de canhão tantas vezes...

O piloto avisa: o canal 14 transmite as comunicações de rádio. Boa! Quem sabe me ajuda a descansar. Sintonizo e ouço o silêncio. Mas não era um silêncio imediato entretanto, de um rádio desligado. Era o silêncio do vazio, da imensidão que separa o avião da torre ou de outro avião. Muito raramente, fala uma voz com alguma estática, alguém responde. Uma gíria desconhecida, uma forma de falar que me parecia estranha no início. Aos poucos ia me acostumando e entendendo mais: estes éramos nós, esses eram da torre de Los Angeles. Esses eram de outro vôo, falando com a torre. Mais fraco: provavelmente mais distante. Às vezes ouvia-se somente a torre de controle, eu adivinhava a resposta de um vôo longínquo.

Os longos silêncios nos remetiam a essa noite estranha, a esses espaços imensos. Imprevisíveis, as conversas vinham, entrecortadas, quase nos dizendo onde estavam, eu quase as localizava em uma tela de radar à medida que adormecia. Os aviões estavam conectados a essa malha maravilhosa de ondas de rádio. As conversas eram curtas e precisas: uma pergunta, uma resposta, um agradecimento. Via os maravilhosos painéis iluminados na noite que era impenetrável para os olhos, mas transparente para o rádio. Muitas décadas de tecnologia seguravam essa imensa máquina no ar, enquanto os passageiros assistiam vídeos idiotas.

Um silêncio mais longo me garantiu que voávamos sobre território despovoado, talvez o oceano, talvez uma extensa floresta, a cada hora percorríamos mil quilômetros. Então algo diferente aconteceu: uma conversa distante, mas, surpreendentemente em Português. Por quê? Passamos pelo México, América Central, todos países de fala hispana e todas as comunicações eram em perfeito e impecável Inglês. O nosso comandante, eu já lhe reconhecia a voz, se dirige a um controlador... uma pausa mais longa. Alguém pede para repetir, com forte sotaque brasileiro, não parece ter entendido. O comandante, paciente e seguro, repete devagar. O brasileiro responde, em Inglês.

Pensei que, de repente, as comunicações ficaram mais difíceis. O piloto americano tinha dificuldade em falar com o brasileiro da torre. As conversas entre torre e outros pilotos continuavam, profusas, em Português, imperscrutável para o nosso comandante. Será que esses atrasos e mal-entendidos não seriam perigosos? Quanto significariam esses dez segundos a mais que os controladores levavam para entender Inglês? Fiz as contas mentalmente...dez segundos... mil quilômetros por hora, trezentos metros por segundo... uns três quilômetros. Considerando que outro vôo podia vir em direção contrária, três vezes dois... 6 quilômetros.

Dez segundos de atraso significam 6 quilômetros em um choque entre aviões. Pensei na tecnologia envolvida nos aviões, e como esta está comprometida por alguém que não aprende nem Inglês, a língua universal do espaço aéreo. Pensei que o Brasil não exige Inglês nem para o serviço diplomático, qual será o nível exigido dos controladores de vôo?

Não me preocupei. Apesar desse atraso de dez segundos, senti confiança em meu piloto. Ele parecia saber do problema e sua voz nem se alterou. Os equipamentos de segurança nos protegeriam da ignorância, pensei. Apoiei a cabeça no travesseiro e adormeci.

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2006-09-23

Mau pressentimento

O aeroporto de Congonhas era o meu favorito desde criança. Os Electra me fascinavam, como aceleravam as hélices uma a uma e depois começavam a se mover lentamente na pista fazendo esse barulho de ventilador prestes a explodir. Era a partir de Congonhas que começavam todas as viagens, para mim era o portal para o desconhecido.

Muitos anos depois Congonhas passou a se comportar como um terminal de ônibus de luxo. Brasília, a mais desconexa e artificial de todas as cidades do Brasil, era semanalmente alimentada por vôos que levavam os políticos. Os de São Paulo eram clientes preferenciais do aeroporto.

Eu estava com um americano, Mr. Thomas, íamos visitar uma empresa em outra cidade. O vôo saía cedinho, tínhamos a intenção de voltar no mesmo dia.

Thomas era um sujeito afável, apesar de um pouco quietão. Mesmo assim, trabalhava com vendas. Desdobrava-se para ajudar com os problemas dos clientes, que em geral gostavam muito dele. Ele tinha uma certa curiosidade a respeito das coisas do Brasil... mas confessava que não entendia muito bem. "Por que importar é tão complicado?" - perguntava. Eu respondia do melhor jeito que podia, mas ele ficava intrigado: "Não percebem que se facilitarem as importações a economia melhora, melhorando também as exportações?". Tinha que admitir que havia muita coisa errada com a burocracia infernal desse paisinho de segunda. Quem conhece o edifício onde ficam os despachantes de alfândega em Cumbica sabe do que eu estou falando. É um buraco medonho onde - pasmem - despachantes sublocam pedaços de salas com escrivanhinhas sujas com porcas máquinas de escrever velhas em pleno século 21. É que só dá para preencher os formulários em 7 vias com essas. Rapazes carregando montanhas de papéis vão e vêm, lotando os corredores. Incompetentes sebosos catavam milho nessas máquinas, cuidando em fazer bastante barulho para que não se notasse sua lentidão. A técnica deles consisitia em apertar e soltar a tecla das maíusculas muitíssimas vezes, sem outra finalidade do que impressionar os outros com o som, passando a impressão de produtividade. Não era à toa que Thomas não entendia.

Bom, estávamos Thomas e eu no ambiente muito mais bonito de Congonhas, e entramos em uma sala de embarque. Thomas era muito religioso e acreditava em um fenômeno estranho chamado "arrebatamento". Bom, ele nunca confessou que acreditava, mas eu tenho quase certeza. Cada vez que a nossa conversa chegava perto de um tema sensível, ele se fechava um pouco... e eu não insistia. Parece que na primeira etapa do Juízo Final, Deus literalmente puxaria para cima os bons, deixando os pecadores sozinhos no mundo. Em um mundo só com gente ruim certamente aconteceriam todos os tipos de desgraça, aí que o demônio viria para juntar os que tivessem sobrevivido à carnificina e os levaria às profundezas. Não tenho dúvidas de que, num mundo assim, Thomas seria mesmo arrebatado.

Em determinado momento vejo um grupo de pessoas, em círculo. Reconheço uma delas. "Thomas, estamos com sorte" - disse eu, rindo- "Aí está o cara que é o favorito para presidente do Brasil nas próximas eleições". O Lula estava de terno e óculos escuros, rodeado por varios de seus "companheiros" vestidos exatamente da mesma maneira. Formavam um círculo de modo que Lula não precisasse falar ou cumprimentar ninguém. Parecia não querer ser visto, reconhecido. Thomas olhou para lá e perguntou: "Qual deles?" "O terceiro à esquerda" - disse eu.

Lula estava gordíssimo e parecia mesmo evitar os olhares dos que estavam ali. Thomas, que nunca tinha ouvido falar sobre nada da política brasileira ficou sério instantaneamente. "Se esse cara ganhar, que Deus os ajude." Olho para ele... O que ele estaria vendo nesse grupo? Inicialmente pensei que ele estivesse brincando e eu perguntei por que ele achava isso, meio zombeteiro. Seríssimo, evitou falar. Ante a minha insistência, disse: "Só olhe para eles. Não percebe quem não quer."

Olhei novamente para o grupo escuro. Imediatamente senti o que Thomas sentiu. Vi os abutres reunidos sob uma nuvem tenebrosa. Ele tinha razão. Não havia mesmo chance alguma de sair algo bom dali. Só não percebe quem não quer.


2006-08-13

A ciganinha



Sempre foi claro para mim que o que ganhamos em uma viagem depende muitíssimo de com quem estamos ou quem encontramos no nosso caminho. As viagens solitárias tem um sabor de "busca de si próprio", por assim dizer. Nestas, e diria especialmente nestas, o impacto do contato humano fica amplificado. Encontrar alguém de quem gostamos ou com quem nos identificamos é uma experiência incrível.

O mistério é aumentado quando não podemos nos comunicar completamente: tudo fica difícil sem uma língua comum. Mas não é aí que os olhares e os movimentos passam a ser ainda mais importantes? Não é nesses momentos que o que fazemos e o que tocamos supera tudo o que poderia ter sido dito?

Era inverno em Budapest. Nessa tarde decidíamos a qual concerto iríamos de noite. Havia um que parecia interessante, de um talentoso pianista húngaro. Eva não queria ir nesse... "Por que você quer assistir? Ele é chato. Toca exatamente igual ao disco. Você tem o disco, não tem? Não vamos neste não..."

Eva era bonitinha e tinha nos olhos sempre faiscas de excitação. Nos comunicávamos em alemão, que ela falava impecavelmente com um sotaquezinho meio austríaco, meio húngaro, com os erres pronunciados na frente e não na garganta. Sempre gosto quando as moças falam alemão desse jeito...rrrr rrrr.... Uma pianista loirinha, inquieta, decidida. Ela sempre parecia saber o que queria.

"O que você sugere então?" pergunto, já imaginando que Eva tinha algo em mente. Ela ficou pensativa por um momento. Não sei se estava tentando fazer suspense... então deu um gritinho e disse: "Tenho uma idéia, não sei se vai dar certo, vou dar um telefonema." e saiu correndo.

Quando voltou, veio com o ar satisfeito de quem tinha conseguido algo fantástico. "Feito" disse Eva. "Uma amiga concordou em tocar para a gente. Em troca, pediu que a levássemos para jantar no Café Arlequino. Acho que deveríamos pagar para ela." Mais do que justo, pensei. Se ela era tão boa assim, melhor que o famoso pianista húngaro, merecia pelo menos que pagássemos o jantar. Pergunto como é o nome dela. "Laura" e acrescenta baixinho, com um ar marôto: "Ela é cigana..."

Na Hungria comunista os ciganos tinham que ser integrados a todo custo. A maior parte deles era nômade, acampando aqui e ali, e sobrevivendo de roubo e trambiques. O governo central não podia permitir que os 'companheiros ciganos' não se integrassem à sociedade, e aplicaram um sistema de discriminação positiva: os ciganos recebiam bolsas de estudo, moravam nos melhores lugares. Recebiam vantagens, que de bom grado aceitavam. Na média, os ciganos não mudavam sua natureza, de profundas raízes socio-culturais. Confrontados com um presente como esse, vindo do governo, porque iriam recusar?

Fiquei sabendo que Laura tinha origem cigana, mas já era 'civilizada' ha várias gerações. Entretanto, a sua família aproveitava as vantagens de ter ancestrais ciganos: moravam em um apartamento no centro, uma vantagem da discriminação positiva. De outra maneira teriam que comprar uma casa em um bairro ou viver em conjuntos habitacionais feios, tristes e afastados da cidade.

Tomamos um bonde e fomos até lá. Chegamos a um prédio escuro, grande, com um pátio interno e sem elevador. A única entrada estava quase bloqueada por imensas latas de lixo cheias. "É aqui?" perguntei intrigado, já sentindo falta da magnífica sala de concertos que tinha trocado por esta incerta aventura. Ante a resposta positiva, manifestei a minha incredulidade: "Tem certeza?" O lugar era um antro. Ouviam-se gritos, choros de crianças, tudo ecoando nos corredores e no pátio. Subimos uma escada escura, da qual eu teria despencado facilmente se não fosse o corrimão a me ajudar a cada momento. Era pior que os cortiços de filmes da Europa Oriental. Perguntei onde estaria o "privilégio" de morar em um lugar como esse. "É perto do centro" disse Eva, preocupada com onde punha os pés na escuridão da escada.

Chegamos à porta do apartamento de Laura. À medida que nos aproximávamos na escuridão, a porta foi se abrindo e iluminando o chão pela fresta com a luz que vinha de dentro.

"Percebi que vocês estavam chegando e abri a porta" disse alegremente em húngaro uma moça baixinha, com cabelos muito negros, lisos e compridos. A Eva nos apresenta: essa era a Laura. Com um sorriso, aperta minha mão. Após uma rápida verificação, chegamos à conclusão que não falávamos nenhuma língua em comum. Como o meu húngaro não funcionaria mesmo, conformei-me. Tínhamos ido para ouvir música, afinal.

O primeiro choque veio quando entrei no apartamento. Iluminado, imenso, com belos candelabros de cristal, era um verdadeiro palacete. O contraste com o que vi do lado de fora era brutal: tapetes persas forravam as paredes e o piso, um gigantesco piano negro no meio da sala dominava os olhares de todos. Sim, era um Steinway alemão. Como tinham dinheiro para adornar a casa inteira dessa maneira exuberante, em um país comunista? Aparentemente o pai da Laura era um violinista na Suíça, e o dinheiro estrangeiro (valuta) tinha um poder de compra impressionante em países onde a moeda oficial não era mais que dinheiro de mentirinha, como o do Banco Imobiliário. Laura era riquíssima.

Após uma conversinha, a Laura pede para que sentemos ao redor do piano e anuncia o "Programa": Partita n.1 de Bach e 'Gaspard de la nuit' de Ravel. As mãos dela eram um tanto pequeninas. Será que ela daria conta do recado? Eva diz baixinho, em alemão, que a Laura tinha recebido da academia de música de Budapest a maior honraria que eles concedem a músicos: todos que lá estudam saem com o diploma de músico, mas ela era "Müvész" ou "Artista". Pouquíssimos conseguiam tal feito. Não tinha tanto a ver com a perfeição técnica como com a originalidade e emoção da interpretação.

Mas boa técnica ela tinha. O prelúdio da Partita serviu como um aquecimento, onde Bach e ela brincavam com as notas e com a atenção do público, que esperava para ver qual seria o desenvolvimento final. Eu estava cansado de conhecer as partitas e em especial esta, mas a interpretação dela era muito diferente do que eu estava acostumado. Feminina, eu diria, com uma precisão no toque e uma nitidez nas vozes como é realmente difícil conseguir. Rodeado de tapetes persas, badulaques e lustres, o ambiente era muito instigante e a acústica era estranhamente teatral. Laura continuava trabalhando na sua interpretação e a sarabanda talvez poderia ter sido mais doce, mas o forte dela era mesmo nos movimentos rápidos e rítmicos. A giga me deixou tonto, tão fortemente expressiva, nítida e decidida.

Laura sabia o que causava quando tocava. Entre tudo o que senti, senti também inveja. Ela fazia o que queria no teclado; quando eu tocava, poderia me dar por satisfeito se acertasse as notas. Por sorte a apreciação da sua arte superava em muito a inveja. Olhava de vez em quando com o canto do olho para se certificar, mas ela sabia muito bem o poder que tinha.

Fez uma curta pausa e começou o Ravel. Esperta como era, deixou o melhor para o final: jamais ouvi uma interpretação como aquela, nem mesmo em gravações de grandes gênios. Fiquei completamente embasbacado. Eu não esperava mesmo algo tão perfeitamente sublime.

Quando terminou, apesar de não estarmos em um teatro, aplaudimos freneticamente. Aplaudimos não tanto para aplaudir como para evitar o silêncio embaraçoso que ficaria quando Laura terminasse, parasse de inundar nossas almas com aquilo que era para mim o que existia de mais valioso: música de verdade, tocada só para nós, por uma Artista. Merecíamos tanto?

Ficou sentada lá por um momento, um pouco de lado, sorrindo. A sua imagem ficou para sempre gravada em minha mente.

Fomos ao Arlequino, que era um lindo café com fantásticos doces húngaros, pedi uma Gundel Palacsinta e durante todo o tempo Laura ficou brincando com as amigas. Ela escolheu um lugar especial, de onde pudesse encarar o pianista, que aparentemente a conhecia. Aparentemente? O pobre rapaz começou a suar terrívelmente quando a viu. Laura estava adorando tudo isso.

"Agora ele vai tocar tal e tal música, e vai fazer uma cara engraçada em uma passagem, querem ver?" dizia Laura... e batata. Acontecia exatamente igual ao que ela previa. Uma vez, outra e outra mais. Fiquei com uma pena incrível desse pianista que parecia ficar mais e mais perturbado à medida que as gargalhadas de Laura chegavam-lhe aos ouvidos. Qual era a razão dessa tortura? Amor não correspondido? Uma natureza cigana parecia estar se manifestando. A previsão do comportamento do coitado que não podia fugir a seu destino, não podia se esconder, tinha que continuar tocando, encarando de frente a sua desgraça, a sua insignificância. Era tenebroso o fato de que ele tentava agradar, mas parecia saber que era impossível, que Laura era infinitamente melhor que ele.

Quando fomos embora, Laura estava satisfeitíssima. Deixamos o derrotado pianista pelo qual eu não pude evitar sentir uma pena tremenda. Andamos com ela de volta para o prédio escuro em que morava. De volta ao apartamento, pela primeira vez, Laura me dirige o olhar diretamente, sorri e diz: "Nice to meet you".

Vi então instantaneamente a realidade. A mágica que eu havia presenciado tinha uma lógica, um motivo: o pai músico, a irmã violinista. Ela, pianista. Longas e intermináveis tardes de estudo, esforço e dedicação. O que eu vi e ouvi não acontece de uma hora para a outra, por acaso. Algum poder impressionante tem que estar por trás, impulsionando tudo aquilo, essa inacreditável busca pela perfeição expressiva.

O que seria o que a impulsionava? Quando nos despedimos ela estava quase doce, como um plácido regato. Eu sabia no entanto que por trás daqueles olhos havia um fogo escondido que lutava sempre para sair do controle que a sua dona lhe impunha. Era uma luta eterna. Quem terá vencido no final, a moça ou o fogo?


2006-07-11

Um prêmio Nobel no Rio


Estou re-editando um post antigo que fez sucesso, sobre Richard Feynman e sua visita ao Rio em 1953. Tive a grata surpresa de saber que o livro que mencionei lá está sendo editado pela primeira vez no Brasil, sob o nome "O SENHOR ESTA BRINCANDO, SR. FEYNMAN? e pode ser comprado através da Livraria Cultura. Basta clicar na capa:




As notas de aula de quando Feynman esteve no Rio de Janeiro estão aqui:


O livro vale mesmo a pena. Além de contar algo de sua visita ao Brasil, ele cita alguns interessantes eventos ocorridos nos bastidores do Projeto Manhattan, o codinome do esforço de pesquisa que resultou no desenvolvimento da primeira bomba atômica, na segunda guerra. Segue o meu post.




Nunca ajude a quem não pede ajuda

Era claramente uma idéia genial. Usariam fundos de entidades internacionais para promover a cultura, promover o intercâmbio de idéias. No mundo pós-guerra acreditava-se que essa seria a melhor maneira de evitar os horrores que decorreram da falta de entendimento, das diferenças culturais.

A Ciência seria o meio ideal. Como está baseada no método experimental, até os mais recalcitrantes místicos tem que, no fim, concordar com os resultados, se seguirem preceitos lógicos. O estímulo ao ensino de ciência era a forma de estimular o pensar, erguer a humanidade a um novo patamar. Não poderiam ter sido mais nobres as intenções.

A idéia era enviar professores de grande prestígio a países sub-desenvolvidos. Esses professores lecionariam em universidades por um ano e voltariam para seus países de origem. Os seus salários seriam subsidiados por organismos internacionais, efetivamente transferindo riqueza intelectual para lugares que jamais teriam como contratar gente deste gabarito. Nada poderia sair errado. Era uma idéia perfeita.

Um deles, o Professor Richard Feynman, adorou a idéia. Ele ganharia posteriormente um premio Nobel em Física e estava em um ano sabático. Queria mudar de ares. Pensou em aprender Espanhol, mas viu uma moça bonitinha entrando em uma aula de Português... e entrou na sala. O Rio de Janeiro o seduzia. Não teve dificuldade em conseguir a transferência para uma universidade carioca. O ano era 1953.

Feynman, para quem não sabe, era um tipo especial. Como professor, sempre aparecia com novidades sobre como atacar um problema, remanejar matematicamente, virar tudo pelo avesso, sempre de alguma maneira que fizesse sentido. Era entusiasmado com a vida, apesar de ter sofrido bastante. Casou-se com sua paixão da adolescência, que morreu imediatamente depois. Mesmo assim era um tipo que enxergava tudo de maneira positiva, comunicava-se claramente e entusiasticamente e tinha uma força vital impressionante. Era muito querido por seus alunos, e formava-se naturalmente uma turma ao redor dele. Uma turma que compartilhava de seus anseios. Há um filme baseado na vida dele. Nunca assistam. É uma porcaria. Matthew Broderick é um ator de quinta categoria, e ele é quem faz o papel de Feynman. Em lugar do filme, leiam os seus livros. Um dos mais interessantes é "O senhor está brincando, Sr Feynman?". Quem gosta de Física pode se deliciar com suas "Lectures". É um gênio de primeira grandeza, e sempre se pode aprender com eles. Mas há uma coisa fenomenal em Surely you're joking. Algo que notei, mas nunca tinha pensado em profundidade até ver o fenômeno claramente descrito no livro.

Bom, como dizia, era 1953. Feynman fica encantado com o Rio. Surge então um problema misterioso quando começa a dar aulas. Há uma debandada geral de alunos. Eles vem mais tarde, em um pequeno comitê, para explicar que eles não fariam as lições pois eram muito simples e eles teriam que estudar para materias do curso (esta era fornecida como optativa). Então, Feynman, que não entendeu direito como as coisas funcionam no Brasil, tratou de passar tarefas mais difíceis. Nada deles fazerem.

Notou que só dois ou tres alunos assistiam ao curso e faziam o que era pedido. Quem quiser as notas de classe daquela época veja aqui. Notou também que nenhum destes tinha estudado anteriormente no Brasil. Eram estrangeiros ou filhos de estrangeiros. Intrigado, começou a estudar mais profundamente os métodos de ensino no Brasil. Notou que a maior parte dos outros, que pareciam bons alunos, eram na verdade papagaios que estudavam para atravessar as provas. Todo o sistema era construído para esses, que na verdade não aprendiam: decoravam. Ele verificou com cuidado o tipo de prova que era oferecido e por que não se detectava o problema. Notou também que ninguém tinha interesse em mudar nada. Os alunos estavam satisfeitos. Os professores também.

Frustrado, em seu discurso final, na formatura, explicou, em Português: "No Brasil não se ensina Ciência".

Todos ficaram assustados. O que ele estava fazendo? Explicou a reação dos alunos e dos outros professores, descreveu com cuidado os problemas que encontrou. Tudo o que conseguiu foi desencadear fúria dos acadêmicos, dos patrocinadores, dos jornais, de todo o mundo.

Feynman sentiu que tinha a responsabilidade de avisar, de contar a todos o que ele viu. Foi ignorado soberanamente. Esse lugar é de uma arrogância incrível... Este professor que até aprendeu Português, foi batucar na escola de samba e tentou com toda a sua força ajudar... só foi atacado. Eu, que teria adorado fazer um curso com ele, entendo bem o que ele quis dizer. 30 anos depois, nada mudou. 50 anos depois, não sei, mas apostaria que tudo continua igual, se não tiver piorado.

O grande erro é, como uma vez um amigo comentou, que não se deve ajudar a quem não pede ajuda. Isso é tão comum... você vê os erros, sabe resolver, mas quem erra não tem interesse em ser ajudado. A verdade é que a primeira etapa para a melhora é sempre o reconhecimento do erro, baixar a crista. A solução vem da vontade de resolver, e aí, nesse instante uma mãozinha vem a calhar. Eu acho que no caso desse país o reconhecimento está demorando muito mais do que devia.






2006-04-30

Uma folha em branco

Olhou novamente para a folha. Seus olhos, cansados, batalhavam com as letras que teimavam em se embaralhar, ali mesmo, na sua frente. A velha sensação incômoda tinha voltado, o coração já estava a bater mais rápido. Pensa momentaneamente que deveria consultar o oculista, os óculos que estava usando não pareciam mais ajudar. Faz uma pausa. Tira os óculos e esfrega os olhos. Sabia que estava se enganando, sabia que o problema não estava nos óculos. O problema era a própria página, havia demasiados parágrafos, demasiadas linhas e demasiadas palavras. Pensa que não haveria problema. Mandaria resumir. Sim, fazer um sumário bem curto para que ele pudesse ler, assimilar. Ele era inteligente. O problema é que não tinha tido oportunidade. Isso mesmo, não tinha tido a chance de ir a uma escola decente, ler livros... A sensação desconfortável, entretanto, não desaparecia. Sempre acontecia a mesma coisa. Cada vez que em sua vida tentou ler um artigo em uma revista ou jornal, tinha essa reação ansiosa. O esforço era muito grande, sua mente ficava em branco. Lutava para entender cada palavra. O rapaz ao lado não teria dificuldade em ler a página, resumi-la para ele. Tinha tido sorte. Tinha estudado. O que não conseguiu foi reprimir o seu ódio ao vê-lo ler e, tranquilamente, em segundos, resumir a página à metade de seu tamanho original. "Mais não dá, perderia muito conteúdo." disse, com a calma de quem está sendo limpidamente honesto. O que será que lhe causava mais ódio, a forma cândida com que falava ou a facilidade em ler aquela página e reescrevê-la em dois minutos? A sua calma honesta? Ele não tinha tido oportunidades, por esse motivo não pôde ser honesto como o rapaz tinha sempre sido. Tinha que se concentrar em outra coisa. Ficar com ódio do seu auxiliar não o ajudaria em nada. Tinha um país para administrar. Quase duzentos milhões de pessoas estavam esperando dele uma iniciativa, uma decisão acertada. Tinha que ler aquele resumo de um resumo das manchetes de primeira página dos jornais. Precisava no mínimo entender o que estava acontecendo, o que se dizia por aí. Com o novo resumo nas mãos, a ansiedade aumenta. Desiste. O ódio toma conta dele novamente. Imagina uma frase, uma frase que dirá logo mais para uma platéia de milhares de pessoas, que será transcrita em todos os jornais... como poderia começar? "Nunca antes neste país..." Sim, perfeito! Só assim o seu ódio seria mitigado. Aproveitaria para caçoar dos que tinham estudado. Bastava jogar na cara deles, desses desgraçados que leriam com facilidade o jornal no dia seguinte, mostrar-lhes como ele, somente ele podia entender a sensação, a sensação de impotência de segurar uma página, uma folha de papel, que poderia ter estado em branco. Uma folha escrita, que para ele era uma folha suja com garranchos feios e ininteligíveis. Só ele sabia como se apoderar dessa sensação de todos os que já a tinham sentido, voltá-la a seu favor. Isso ele sabia muito bem. Estava decidido. É o que faria hoje.















2006-04-21

The Coffee Plunger

Um bom café de manhã cedo. Era só o que ele buscava. Recém chegado, estava cansado do instantâneo, rápido, constante mas sem graça. Algumas semanas de estadia o fizeram buscar o óbvio, uma máquina, um filtro de papel...

O mercado tinha sido um achado... as bancas de frutas, os queijos e os patês... azeitonas e tomates secos, as carnes, aves, manteiga a granel. As mesas na calçada, as vitrines do café à francesa. Mas não encontrou o que esperava. Existe, mas não temos. Esta máquina de expresso... não, não, só queria uma máquina de café, até a velha meia serviria... como pode ser que não existisse? O homem da loja sacode a cabeça: não temos. Afinal de onde você vem? Não sabe como faz café?

Paciente, ele finge não saber. Talvez fosse a melhor maneira de descobrir, pensa. O homem, incrédulo, mostra muitas caixas. Diferentes formatos e tamanhos, uma infinidade de variedades e estilos: Plunger... Plun-ger. Coffee Plun-ger.

Nunca havia visto algo assim. Desconfiado escolheu o menor, o mais barato. Como se usa? O homem olha intrigado. Afinal responde de má vontade: põe o pó aqui, água quente, e a tampa. Espera um pouco, pressiona o embolo e serve. Uma moça na loja começa a rir. O homem fica com raiva, tinha que atender os outros clientes. Parece fácil, pensa ele e leva o plunger para casa. No caminho, para em um mercado para comprar café. Encontra um, moagem especial para plunger. Que seja.

Uma vez em casa, abre o pacote. Trazia como brinde mais café, especial para plunger... e um manual de instruções. Estava desmontado, mas uma foto na caixa não deixava dúvida de qual a aparência da coisa. Um ar vitoriano... tornado óbvio pela palavra "Vittoria" escrita no vidro em letra cursiva. Um corpo cilíndrico de vidro, um becker alto, emoldurado em uma grade dourada. Como apoio quatro pernas de chapa dobrada em forma circular protegiam o fino vidro do copo.

Esquentou a água, pôs o pó e depois a água quente. Imediatamente o aroma familiar encheu a cozinha. Nessa manhã o sol entrava forte pela janela, iluminando o vitoriano copo. Podia ver os grãos nervosos, subindo... descendo... subindo junto com uma espuma escura e tímida. Que cor bela, indecidida entre o vermelho e o dourado, tons de marrom que simpatizavam com a moldura. Decidiu bater o plunger delicadamente na pedra da mesa. Que perfeito amortecimento os pés redondos forneciam! A vibração levantava uma espuma clara enquanto os grãos desciam lentos. Hora da ação: pôs a tampa e baixou lentamente o pistão. Os grãos se aglomeravam em uma fina grade no êmbolo, filtrando o líquido, de baixo para cima, a resistência aumentando por causa do acúmulo de grãos, que filtravam ainda melhor. Que equipamento interessante!

Perdeu a conta de quantas vezes repetiu o processo nessa manhã. Cada vez de forma ligeiramente diferente, esperando mais ou menos, batendo ou não na mesa, força no êmbolo ou deixando descer lentamente. À medida que se deixava encantar pelas cores e aromas a certeza: nunca gostaria mais de nenhum outro plunger: aquele era o perfeito, ancestral de todos os demais e nunca superado. O brilho do sol só se encarregava de queimar a imagem perfeita em sua retina, garantir que a sensação nunca se perdesse.

Mais tarde, no bonde, fechou os olhos e ainda via os grãos iluminados pelo sol da manhã. O suave movimento das cores e a lembrança dos aromas fizeram-lhe companhia pelo dia inteiro. Quando o sol estava se pondo, tingindo as nuvens de tons pastel teve uma idéia: voltaria para casa e escreveria, escreveria sobre o plunger.




2006-04-19

Piada de loira

Estávamos naquele momento do jantar em que já havíamos terminado o prato principal. O salmão com molho de maracujá estava divino, muito bem acompanhado com um risoto de espinafre. Acho que o toque mágico foi dado por um excelente Chardonnay chileno. Eu olhava os copos de cristal ainda contendo o líquido um pouco dourado e os belos pratos sobre a toalha rendada, assim como o arranjo de flores pequenino ao lado de cada prato. Ao fundo ouvia-se uma música sutil. Devia ser uma serenata de Mozart.

Tive sorte. Eu estava sentado em frente à Ana. Bonita morena, carioca, sabia se arrumar muito bem. Era uma verdadeira artista. Nessa noite estava usando um colar com figas, muitas figas de pedra coloridas no decote. Os homens passavam-lhe perto e diziam: "Bonitas figas, Aninha!" ao que ela respondia com um sorriso de desmanchar a alma.

Alguém começou a contar piadas de loira. Em certo momento a Ana diz:

"Eu tenho uma! Eu sei uma! Bom, na verdade não é de loira... deixa eu ver... acho que não faz diferença... não, não faz diferença mesmo."

Perguntaram-lhe: "É de loira ou não é?" ao que respondeu: "Não é mas vou fazer com que seja..." Todos os olhos se voltaram para ela. Eu não precisava nem virar o rosto, ela estava aí mesmo, pertinho, na minha frente. Ela começa, minuciosa:

"Foi em um edifício de oito andares, em Copacabana, um apartamento por andar. Era um prédio pequeno, mas muito bem cuidado. O Zelador, seu José, tinha trabalhado ali por vinte e cinco anos e estava a ponto de se aposentar. Todos gostavam muito dele, ele era um amor... bom, todos menos um, né? O morador do primeiro andar, que também era o síndico do edifício, detestava o seu José. Odiava ele mesmo... Fora esse, todos gostavam muito dele. Paravam para bater papo, seu José era muito inteligente e atencioso, amigo mesmo."

Eu me perguntava onde estava a piada de loira, mas só olhar para a Ana gesticulando e descrevendo as minúcias já valia a pena. Ela não parecia ter pressa alguma.

"Uma noite, teve uma reunião de condomínio. Um dos moradores sugeriu que o condomínio pagasse algo a mais para seu José, que estava para se aposentar e sempre tinha sido tão bom funcionário. Imediatamente o síndico pediu a palavra para se opor. Disse que não havia nenhum motivo para pagar nada a mais, a rescisão já seria suficiente. Na verdade o síndico estava furioso. Não podia nem ouvir falar de seu José, de tanta raiva que tinha dele. O outro morador insistiu, houve um bate-boca na reunião e no fim ficou decidido que cada um dava o que quisesse para o zelador. Ficou decidido que o seu José passaria em cada apartamento para se despedir e receber um presentinho de cada um. O síndico não gostou do resultado. Saiu da reunião praguejando."

Eu me perguntava se a Ana estava era caçoando da gente. Ela continuava, entusiasmada, mantendo a atenção de todos. A maior parte dos que estavam na mesa queria era um pretexto para continuar olhando para ela...

"Seu José ficou sabendo do resultado, e ficou preocupado. Sabia que o síndico o detestava, e estava pensando se devia ou não comparecer ao apartamento do primeiro andar. Ele estava certo de que o ódio do síndico era total, ainda que não soubesse a razão para tanta raiva. Enquanto pensava, subiu ao elevador, e se encontrou com a mulher do síndico, que também gostava do seu José. Ela era muito bonita e..."

"Loira!"
- dissemos todos, pensando por que é tão comum calhordas se casarem com mulheres bonitas...

"É. E muito bonita mesmo... Aí o seu José falou pra ela que achava melhor não passar lá no primeiro andar e ela disse para ele não ser bobo, que o marido dela no fundo gostava muito dele também, só que tinha vergonha de expressar seus sentimentos. Disse que ele até tinha separado um presentinho para ele, nada de mais, só para expressar a sua gratidão, que ele podia vir sem problemas. Seu José, que como todo bom zelador também era bem desconfiado, ficou pensativo. Sempre achou que o síndico o detestava. Por via das dúvidas decidiu ir primeiro ao oitavo andar e foi descendo. Em cada apartamento, o seu José recebia alguma coisa, dinheiro, cheques. Teve até um pessoal que chorou, emocionado. "

"Chegou a hora do fatídico primeiro andar. Seu José até pensou em desistir, mas no fim pensou que não tinha mesmo nada a perder. Tocou a campainha. Para sua surpresa atendeu a mulher do síndico vestida em uma camisolinha curtinha de seda, chinelos cor-de-rosa com um pouco de salto..."

Ana descrevia os detalhes com precisão. Já estávamos enxergando a loira...

"E pegou na mão dele e disse para ele ficar tranquilo, e levou-o para o quarto. Seu José não podia acreditar no que estava acontecendo, mas se deixou levar. Na verdade nunca tinha se sentido tão feliz como nesse momento em toda a sua vida. A moça foi um encanto com ele."

"Depois de transar seu José já se preparava para ir embora pois não esperava ganhar mais nada na vida. A loira disse para ele esperar um pouco, que tinha uma outra surpresa, e pegou na mão dele e o levou para a cozinha. Lá sentou-o à mesa muito bem posta, com queijinhos, frutas, um café, tudo muito arrumado. Seu José estava boquiaberto e comeu, feliz da vida. Uma coisa o intrigou enquanto comia. Do lado do seu prato havia uma moedinha de vinte centavos. Perguntou para a moça o que era essa moedinha."

"Esta moeda? É que meu marido disse pra mim: 'Você fode ele e dá só vinte centavos.' Agora, o lanchinho... foi idéia minha!"

Todos riam histericamente. Aninha tinha se superado realmente. Notei entretanto que uma pessoa não ria, o marido de Ana, sentado a seu lado. Ele parecia meio chocado, meio boquiaberto... Comecei a me lembrar... não é que eles moravam em um prédio em Copacabana?






2006-04-06

Nunca ajude a quem não pede ajuda


Estou re-editando um post antigo que fez sucesso, sobre Richard Feynman e sua visita ao Rio em 1953. Tive a grata surpresa de saber que o livro que mencionei lá está sendo editado pela primeira vez no Brasil, sob o nome "O SENHOR ESTA BRINCANDO, SR. FEYNMAN? e pode ser comprado através da Livraria Cultura. Basta clicar na capa:




As notas de aula de quando Feynman esteve no Rio de Janeiro estão aqui:


O livro vale mesmo a pena. Além de contar algo de sua visita ao Brasil, ele cita alguns interessantes eventos ocorridos nos bastidores do Projeto Manhattan, o codinome do esforço de pesquisa que resultou no desenvolvimento da primeira bomba atômica, na segunda guerra. Segue o meu post.




Nunca ajude a quem não pede ajuda

Era claramente uma idéia genial. Usariam fundos de entidades internacionais para promover a cultura, promover o intercâmbio de idéias. No mundo pós-guerra acreditava-se que essa seria a melhor maneira de evitar os horrores que decorreram da falta de entendimento, das diferenças culturais.

A Ciência seria o meio ideal. Como está baseada no método experimental, até os mais recalcitrantes místicos tem que, no fim, concordar com os resultados, se seguirem preceitos lógicos. O estímulo ao ensino de ciência era a forma de estimular o pensar, erguer a humanidade a um novo patamar. Não poderiam ter sido mais nobres as intenções.

A idéia era enviar professores de grande prestígio a países sub-desenvolvidos. Esses professores lecionariam em universidades por um ano e voltariam para seus países de origem. Os seus salários seriam subsidiados por organismos internacionais, efetivamente transferindo riqueza intelectual para lugares que jamais teriam como contratar gente deste gabarito. Nada poderia sair errado. Era uma idéia perfeita.

Um deles, o Professor Richard Feynman, adorou a idéia. Ele ganharia posteriormente um premio Nobel em Física e estava em um ano sabático. Queria mudar de ares. Pensou em aprender Espanhol, mas viu uma moça bonitinha entrando em uma aula de Português... e entrou na sala. O Rio de Janeiro o seduzia. Não teve dificuldade em conseguir a transferência para uma universidade carioca. O ano era 1953.

Feynman, para quem não sabe, era um tipo especial. Como professor, sempre aparecia com novidades sobre como atacar um problema, remanejar matematicamente, virar tudo pelo avesso, sempre de alguma maneira que fizesse sentido. Era entusiasmado com a vida, apesar de ter sofrido bastante. Casou-se com sua paixão da adolescência, que morreu imediatamente depois. Mesmo assim era um tipo que enxergava tudo de maneira positiva, comunicava-se claramente e entusiasticamente e tinha uma força vital impressionante. Era muito querido por seus alunos, e formava-se naturalmente uma turma ao redor dele. Uma turma que compartilhava de seus anseios. Há um filme baseado na vida dele. Nunca assistam. É uma porcaria. Matthew Broderick é um ator de quinta categoria, e ele é quem faz o papel de Feynman. Em lugar do filme, leiam os seus livros. Um dos mais interessantes é "O senhor está brincando, Sr Feynman?". Quem gosta de Física pode se deliciar com suas "Lectures". É um gênio de primeira grandeza, e sempre se pode aprender com eles. Mas há uma coisa fenomenal em Surely you're joking. Algo que notei, mas nunca tinha pensado em profundidade até ver o fenômeno claramente descrito no livro.

Bom, como dizia, era 1953. Feynman fica encantado com o Rio. Surge então um problema misterioso quando começa a dar aulas. Há uma debandada geral de alunos. Eles vem mais tarde, em um pequeno comitê, para explicar que eles não fariam as lições pois eram muito simples e eles teriam que estudar para materias do curso (esta era fornecida como optativa). Então, Feynman, que não entendeu direito como as coisas funcionam no Brasil, tratou de passar tarefas mais difíceis. Nada deles fazerem.

Notou que só dois ou tres alunos assistiam ao curso e faziam o que era pedido. Quem quiser as notas de classe daquela época veja aqui. Notou também que nenhum destes tinha estudado anteriormente no Brasil. Eram estrangeiros ou filhos de estrangeiros. Intrigado, começou a estudar mais profundamente os métodos de ensino no Brasil. Notou que a maior parte dos outros, que pareciam bons alunos, eram na verdade papagaios que estudavam para atravessar as provas. Todo o sistema era construído para esses, que na verdade não aprendiam: decoravam. Ele verificou com cuidado o tipo de prova que era oferecido e por que não se detectava o problema. Notou também que ninguém tinha interesse em mudar nada. Os alunos estavam satisfeitos. Os professores também.

Frustrado, em seu discurso final, na formatura, explicou, em Português: "No Brasil não se ensina Ciência".

Todos ficaram assustados. O que ele estava fazendo? Explicou a reação dos alunos e dos outros professores, descreveu com cuidado os problemas que encontrou. Tudo o que conseguiu foi desencadear fúria dos acadêmicos, dos patrocinadores, dos jornais, de todo o mundo.

Feynman sentiu que tinha a responsabilidade de avisar, de contar a todos o que ele viu. Foi ignorado soberanamente. Esse lugar é de uma arrogância incrível... Este professor que até aprendeu Português, foi batucar na escola de samba e tentou com toda a sua força ajudar... só foi atacado. Eu, que teria adorado fazer um curso com ele, entendo bem o que ele quis dizer. 30 anos depois, nada mudou. 50 anos depois, não sei, mas apostaria que tudo continua igual, se não tiver piorado.

O grande erro é, como uma vez um amigo comentou, que não se deve ajudar a quem não pede ajuda. Isso é tão comum... você vê os erros, sabe resolver, mas quem erra não tem interesse em ser ajudado. A verdade é que a primeira etapa para a melhora é sempre o reconhecimento do erro, baixar a crista. A solução vem da vontade de resolver, e aí, nesse instante uma mãozinha vem a calhar. Eu acho que no caso desse país o reconhecimento está demorando muito mais do que devia.






2006-03-22

Masterclass

Era uma bela manhã de sol. No campus, o orvalho brilhava nas folhas recém brotadas de primavera. As árvores moviam-se levemente na brisa fresca da manhã. Tudo parecia indicar novidade, esperança. Viam-se os estudantes chegando por todos os lados, ansiosos pelas primeiras aulas do semestre. Tudo sugeria melhora e renovação. A sala dava para um jardim, mesmo lá dentro mantinha-se a sensação fresca de um novo dia.

A aula era de Física. Entrou o professor, havia uns cinquenta alunos. Todos sentados, silenciosos, esperando entender a proposta desse que era Doutor em Física, de currículo invejável. Começou a falar. Era um homem grande, meio calvo e narigudo, irradiava brilho de uma maneira como nunca tinha visto em um professor nessa faculdade.

Fernando ficou intrigado. O professor começou com uma descrição técnica do funcionamento de reatores nucleares, discorreu sobre as diversas opções, suas vantagens e desvantagens em relação à eficiência de geração de energia, dependência de tipos exóticos de combustível nuclear, variantes e opções possíveis, tipos de tecnologia desenvolvidos em diversos países. Só de ouvi-lo, Fernando imaginava a quantidade de pessoas envolvidas em todos esses esforços, os paradoxos entre as aplicações pacíficas e os usos em armamentos, os problemas do lixo radioativo. Era uma palestra magnífica. Fernando ouvia tudo boquiaberto. Não estava esperando que o professor discorresse tão genialmente sobre um assunto tão interessante.

Ele fazia parte da comissão da oposição que estava avaliando o acordo nuclear Brasil-Alemanha. E ele sabia muito bem do que estava falando. Amigo dos melhores físicos do país e com contatos em todo o mundo ele estava inserido na elite intelectual do mundo. Fernando sentiu-se privilegiado em poder ouvir a essa classe magistral. Quanta sorte!

Começou a explicar os detalhes técnico-comerciais do acordo nuclear. Disse porque o acordo era ruim para o país, o que os alemães estavam realmente vendendo, a que preço, que opções teriam sido melhores, quais os verdadeiros interesses do governo no acordo e o que a sociedade iria ganhar ou perder com isso.

Algo estranho começou a acontecer. Absorto que estava, Fernando percebeu só um pouco mais tarde. Um a um os estudantes abandonavam a sala. O professor nada fazia para impedí-los e não interrompia sua dissertação. Fernando não entendia... Por que faziam isso? As pessoas estavam abandonando a melhor aula que ele jamais havia assistido. Qual a explicação para esse mistério?

Fernando pegou pelo braço um que estava deixando a sala por último... tinha que saber a razão. Ele lhe disse, baixinho e em tom meio contrariado:

"Este professor está falando de política, não está dando aula de Física."

Então era esse o motivo? Fernando discordava totalmente. Claro que estava falando sobre Física, e ainda estava falando sobre muito mais.

Quando havia apenas cinco estudantes absortos em sua exposição, o Professor anuncia:

"Acho que agora quantidade de alunos é ideal para uma boa aula de Física..."

Mudou de assunto. Começou uma magistral aula de Física. Nos moldes dos antigos filósofos, que se reuniam em pequenos grupos para discutir, expunha os conceitos e fazia disgressões, pedia exemplos e comentários. Como os "Discorsi" de Galileu. Como as elucubrações de Feynman. Fernando estava ainda mais estarrecido. Aquele dia estava realmente valendo a pena.

Onde foram todos os desagradados com a aula? Havia outro professor ensinando Física. Ele escrevia longamente na lousa, usando giz colorido, circundando com floreios resultados importantes. Uma aula típica de cursinho. Todos copiando cuidadosamente no caderno. Sentados uns em cima dos outros, na classe abarrotada, tentavam uns ser mais iguais que os outros.

Fernando sabia que o Professor não havia falado sobre os problemas do acordo nuclear por acaso. Os alunos não poderiam fazer nada a respeito dos resultados do acordo, mas estava falando àqueles que deveriam se tornar os novos líderes, deveriam tomar as rédeas dos futuros rumos do Brasil.

O que o impressionou foi a reação. Teve pela primeira vez consciência da enorme diferença entre o modo de pensar vigente e o seu. Estava em minoria absoluta.

A aula foi fantástica. O curso também. Ia a cada aula entusiasmado e realmente aprendeu muito. Aprendeu também sobre as pessoas, e sobre porque o progresso é tão difícil.

Entretanto, as manhãs estavam diferentes.

Já não irradiavam a mesma esperança do início.

Dedico este post ao físico José Zatz

2006-02-01

Esta escola é uma vergonha

Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com eventos que tenham ocorrido ou venham a ocorrer no futuro terá sido pura coincidência.


Os corredores


Fernando estava doente. Não doente físicamente, mas doente de indignação. Desde que tinha entrado na faculdade, uma das melhores de Engenharia do país, passou a se sentir sozinho. E o motivo era claro. Tinha vindo para aprender, entretanto notou que o intuito dos seus colegas era outro: pegar o canudo. Antes da faculdade Fernando acreditava que essa diferença de objetivos não importava, bastaria a ele se concentrar em aprender e tudo funcionaria a contento. Em todas as faculdades do mundo há bons e maus professores, maus e bons alunos. Porque não gastar mais tempo com as matérias dos professores bons? O problema estaria automaticamente resolvido.


Na vida nada é tão simples assim... Para começar ele estava em minoria absoluta. Calculava que um aluno em vinte, aproximadamente, tinha real interesse em aprender. Isso tornava a sua posição extremamente fraca. Não se daria por vencido. Fernando inventou uma estratégia para conseguir o que queria. Primeiro, iria às primeiras aulas de cada professor no curso, para investigar se valeria a pena assistir ou não. Nessa aula, torturaria o desafortunado catedrático com perguntas pertinentes, para melhor avaliá-lo. Se fosse 'aprovado' nesse teste, o professor poderia estar certo de que Fernando assistiria a todas as suas aulas e iria bem em suas provas. No caso contrário, mais provável, diga-se de passagem, Fernando faltava a todas as aulas e só aparecia nos dias de prova. Se fosse reprovado havia uma segunda chance, seis meses depois, na qual Fernando normalmente passava. As provas eram similares, e bastava estudá-las para passar na próxima vez.


Ao longo do curso, percebeu que havia vários professores realmente interessados em ensinar. Alguns eram muito bons mesmo. A maioria no entanto era lamentável. Não importava. O curso era grátis, portanto tudo o que Fernando pudesse aprender lá era bem-vindo. O professor Absinto, por exemplo: os alunos o odiavam a ponto de pixar as paredes da escola com insultos de toda espécie. Ele entretanto era um dedicado professor. O motivo do ódio dos alunos era simplesmente o fato de suas provas serem rigorosas. Nada mais. Fernando sempre ia às aulas de Absinto. Não perdia uma.


A faculdade tinha uma estrutura feudal, onde os professores se entrincheiravam em suas cátedras. Não havia exposição alguma ao mundo exterior. Uma desculpa era a língua: se em algum lugar do planeta houvesse um curso em dialeto Tamil, por exemplo, não haveria muitos candidatos a professor disponíveis no mundo acadêmico. E Português, na sua versão brasileira, convenhamos, não passa de uma obscura língua latinoamericana. Entretanto essa era somente a desculpa. A razão das trincheiras estava na mentalidade de funcionário público e no afã de proteger o seu emprego a todo custo. Concorrência de fora jamais seria bem-vinda. Simples be-a-ba da mediocridade.


Os corredores da escola condiziam estranhamente com seu clima nefasto. Parecia que jamais alguém pensou em senso estético ou mesmo em praticidade. Escuros e compridos, pareciam túneis subterrâneos que conduziam a centros de tortura no Afganistão. Seriam desenhados para desestimular professores forasteiros? Apesar de extremamente opressor, as pessoas se acostumavam com esse ambiente. O ser humano é incrivelmente versátil.


Fernando não tinha intenção alguma de se acostumar com esse lugar. Queria, sim, aprender tudo o que pudesse e seguir adiante.



Controles


O semestre recém havia começado e Fernando já estava em plena atividade de avaliação de professores novos. Um deles chamou-lhe a atenção, o Prof. Avestrucci, de controles. De trato um tanto seco, ele parecia ser reconhecido em sua área. Havia publicado diversos livros sobre o assunto. Meio calvo, não muito alto e bem vestido, expunha conceitos com clareza. Fernando fez uma série de perguntas e ele não hesitou em responder. Parecia um dos bons, pensou, e programou-se para assistir sua segunda aula.


Ser capaz de prever o futuro é um velho sonho da humanidade. De certa forma todos fazemos algumas previsões... quando largamos uma pedra sabemos que cairá no chão. Um pássaro, entretanto, poderia surprender-nos com um voo rasante inesperado e levar a pedrada na cabeça. Sabemos que as chances são pequenas, mas quando algo similar acontece, ficamos boquiabertos. Assim se sentiu Fernando quando chegou para a segunda aula.


Não estava pensando em nada especial quando chegou. Mas a sala estava diferente. Parecia uma manifestação contra o imperialismo americano coordenada pela UNE. Faixas e cartazes que diziam “Fora Avestrucci” e uma série de impropérios contra o coitado. Tudo coordenado, preparado de antemão, havia algo estranho acontecendo, algo que Fernando não entendia, estava embasbacado. Havia um clima de expectativa tensa, excitação entre os alunos, todos esperavam o Prof. Avestrucci chegar para ver sua reação. Fernando perguntava o motivo disso tudo, sem conseguir resposta. Nada fazia sentido algum para ele.


Quando Avestrucci chegou, viu a incrível manifestação e ficou paralisado por um instante. Fernando ainda conseguiu ouvir o homem murmurando “Eu não preciso disso” enquanto ia embora, a passo rápido, olhando para baixo. O entusiasmo dos alunos era geral. Aplausos e vivas, assovios e urros. Fernando ainda estava se perguntando o que tudo isso queria dizer, quando aparece um sujeito baixinho, que todos recebem com a maior felicidade. Professor Robertinho, seja bem vindo...


Fernando ainda não tinha entendido nada sobre o episódio. Continuava estarrecido. O que mais lhe chamou a atenção é a sincronia perfeita entre a saída de Avestrucci e a entrada de Robertinho. Ele sabia que isso não podia ser coincidência. O ato tinha sido orquestrado, ainda que ele não conseguisse ver o regente. Não havia dúvida: uma sinfonia macabra soava perfeita e tinha sido composta nos bastidores.


Robertinho começou sua aula. Apresentou-se como professor suplente de Avestrucci. Fernando observava desconfiado: óbviamente o cara era recém-formado. O seu aspecto e forma de agir estavam mais para um aluno do que para um professor. “Sem preconceitos” - pensa Fernando - “Este cara pode até ser um gênio, vamos descobrir...” e iniciou a sabatina de boas vindas a professores novos. Suas suspeitas foram confirmadas: Robertinho era “inho” em tudo: covardezinho, escapulia das perguntas como podia; mediocrezinho, tentava contra-atacar insinuando que as perguntas não eram pertinentes; inflexívelzinho, fazia de tudo para se ater a um roteiro pré-estabelecido... sabia que qualquer deslize seu seria fácilmente detectado. Decepcionante. “Não há livro texto” - declara - “O curso será baseado em anotações de classe”. Isso é incrível! Um cara que mal sabe a matéria dispensa os textos sobre o assunto e decide dar aula baseado na sua própria cabecinha? Fernando ficou furioso.


Tentou reverter a situação, falou com colegas só para ser recebido por indiferença generalizada. Todos estavam satisfeitos com a troca... algo assim como “Robertinho é um dos nossos”. Um dos nossos o quê? Não foi capaz de convencer nem um único colega a tentar trazer o Prof. Avestrucci de volta. No fim estava desanimado. Que gasto inútil de energia. Um colega parece ter ficado com pena de Fernando, e veio lhe falar no fim da aula.


-Fernando, você precisa entender que essa matéria é inútil. O Professor Avestrucci é famoso por seu alto índice de reprovação. Não precisamos sofrer mais essa. Já tivemos que engolir Eletromag com o Absinto. O importante é terminar esta faculdade de merda de uma vez.


-Você pode pensar dessa maneira mas eu discordo. Eletromag nem foi tão ruim assim. Qual é a vantagem de trocar para o Robertinho? O cara não sabe patavinas. É um enrolador. Está na cara. Vamos aprender o que com um cara desses?


-O que vamos aprender não sei, mas sei que vamos passar, e é isso que me preocupa no momento.


-Então essa manobra estava toda “armada”?


-...


Não havia mais o que fazer. Fernando tinha entendido tudo. Até a motivação do Robertinho já lhe era clara: dar aula para mais uma turma, ficar entrincheirado no seu postinho, carguinho de professorzinho mediocrezinho que era. A função real da faculdade não contava absolutamente nada. “E que tudo o mais vá para o infernoooooo.....”


Uma prova


Claro que Fernando não veio às aulas. Prestigiar Robertinho com sua presença seria ir contra tudo aquilo em que acreditava. O tempo foi passando e chegou o dia da prova de controles. Desanimado, Fernando deu uma olhada em alguns livros sobre o assunto. Não copiou o caderno, mesmo sabendo que as provas eram com consulta. Pensou: “consulta ao caderno, realmente esse Robertinho deve estar brincando”. Era uma situação absurda, realmente.


A prova consistia em duas questões, cada uma valendo a metade da prova. Fernando leu o enunciado da primeira, ela fazia sentido. Após algum trabalho chegou a um resultado. Checou e contra-checou o exercício. Tinha absoluta certeza de ter acertado a metade da prova. Pensou: “Cinco não está mal para quem não estudou e não tinha o material de consulta”. Entregou a prova assim mesmo e saiu.


Uma semana depois, as notas foram afixadas. Fernando ficou atônito: quase todos tinham tirado dez. Para dizer a verdade, havia um 6,5 e um zero. O zero era dele, naturalmente. “Há algo estranho aqui novamente...” pensou. Conversando com colegas eles explicaram que a prova não passava de uma cópia do caderno. O professorzinho de araque tinha resolvido as duas questões da prova na lousa, antes da prova e todos copiaram cuidadosamente... Pela primeira vez, Fernando olha para o caderno de um dos colegas. Em segundos, percebeu qual o problema: o Robertinho tinha errado um sinal em uma equação, e todos repetiram seu erro... nas provas.


Fernando começou a considerar sua situação patética: o único que tinha acertado a questão era também o único zero... começou a rir. Os colegas o olhavam preocupados: não vá Fernando pedir revisão ou algo assim... Robertinho seria forçado a reduzir a nota de todos os demais!


Claro que não resisitiu. Tinha que ver a cara do professorzinho... Foi à sua sala, controlando o riso, tentando parecer sério... Toc toc toc.


-Pode entrar.


-Boa tarde, professor. Gostaria de pedir uma revisão na prova.


-Como não... deixe-me ver... ah... sua situação não é muito boa.


Claro... tinha tirado zero... Robertinho pega uma prova com dez para usar como gabarito. Fernando antecipou-se e disse:


-Professor, acontece que não quero comparar a prova com a dos meus colegas, quero que o senhor me mostre o que está errado na minha primeira questão.


Era impressão sua ou o Robertinho estava ficando pálido? Fernando continuou calmamente:


-Os coitadinhos dos meus colegas não fizeram nada de errado. Só copiaram o caderno do jeitinho que o senhor ensinou. O problema é que havia um pequeno detalhe errado na lousa...


Não era impressão: ele estava suando frio. Não só suando mas pálido e trêmulo. Do que ele teria medo?


-... este sinal, está vendo? A partir daqui tudo muda. Mas por favor não diminua a nota dos meus coleguinhas, eles não fizeram nada de errado... coitados.


O cara já estava se retorcendo na cadeira. Murmurou:


-Bom.... não sei.... talvez possa lhe dar meio ponto....


Fernando estava se divertindo muitíssimo... mudou o tom:


-Meio ponto uma ova! Não saio daqui sem 5 pontos. Não fui eu quem errou.


Robertinho estava de dar pena. Ainda assim Fernando não entendia porque o cara resistia tanto em aumentar-lhe a nota. Sua nota foi subindo, subindo... quando chegou em 4,5 Robertinho parou de aumentar. Porque o miserável não dava 5 para ele de uma vez? Decidiu não perder mais tempo com esse verme e aceitar os 4,5... Mas qual era o problema em dar cinco?


Depois de algum tempo, Fernando entendeu. Todo o esquema ficava claro: haveria uma contundente prova contra o Robertinho se ele desse 5 para Fernando. Mas era tudo tão mesquinho... tudo se resumia em Robertinho manter a sua “boquinha”... e os colegas só pensavam em passar. Fernando pensou se devia levar isso tudo adiante e denunciar o cara para o diretor ou reitor ou para o jornal nacional que fosse. Mas teria toda a turma contra ele... seria um desgaste brutal. Fernando ainda teria que passar anos nessa vergonhosa faculdade... pelo menos seria mais fácil sem o ódio de seus colegas.


Fernando aprendeu bastante nesse curso. Percebeu que o fundamental problema da escola não estava nos professores e sim nos alunos. Seus colegas faziam de tudo para a escola piorar. E os que se formavam já entravam para a gangue... lindo isso. Quando saíssem da faculdade diriam a todos quão boa a faculdade era, a melhor do Brasil, bla bla bla... Mas os sabotadores eram eles. Eles ajudaram o Robertinho, que ganhou excelente avaliação dos alunos. Robertinho seguiu recebendo dinheiro público por anos, e aperfeiçoou seus métodos medíocres. Fernando era co-responsável pelo atraso. Sentia culpa por tudo isso.


Claro que sempre haveria professores bons. Mas cada vez menos. Só os idealistas ficariam. Minoria absoluta, seriam empurrados para o canto enquanto testemunhavam a piora inexorável. Mais e mais dinheiro público iria ser devorado por parasitas para desespero dos que realmente quisessem ensinar, para desgraça de quem quisesse aprender. Comissões de alunos se certificariam de que fosse fácil passar, de que as notas fossem sempre altas. Mas não havia problema. Tratava-se somente de uma faculdade obscura, cujas aulas eram ministradas em um obscuro dialeto sul-americano.