2006-05-04

Ventos da Tasmânia

Nesta época do ano a temperatura cai, o céu fica nublado e triste. O céu azul da maior parte do verão desaparece, e em Melbourne o senso de humor sofre um pouco. Tudo vai melhorar na próxima primavera, mas falta tanto...

Em certos dias sopra um vento forte, gelado, polar, que vem diretamente da Tasmânia. Que lugar incrível esse. Uma ilha ao sul da Austrália, com montanhas e vales, rios e estranhas formações rochosas. Lá o mar é azul como uma pedra preciosa. Dá às vezes vontade de descer e abraçá-lo, mas penso na temperatura que deve ser de uns 10 graus.

A Tasmânia é linda no inverno. Não me perdi nas misteriosas névoas ainda mas não custa nada voltar, é bem pertinho de Melbourne.

Gosto de ficar em pensões. Quase sempre quem toma conta é algum velhinho ou senhora, e de manhã cedo fazem um café maravilhoso. São as famosas pensões "Bed and Breakfast". Toalhas de mesa rendadas, a Tasmânia tem um ar velho, de início de século. Umas casas vitorianas, com comodos de formatos estranhos, adaptadas para o uso como hotel. Em um dos banheiros, quase nunca aquecidos, havia algumas das maiores aranhas que vi na vida. Mais assustadoras, só em Manaus e em New South Wales. Os australianos nem ligam. Desde que não seja uma redback ou uma funnel-web, está tudo bem, dizem. Acreditemos neles, pois.

Em Swansea, um pequeno vilarejo, a noite estava calma e não muito fria. Uma imensa lua cheia surgia por detrás de um mar misterioso. Saímos para jantar em um restaurante local. A maior parte dos frequentadores era de casais. Um senhor de uns sessenta anos e sua esposa estavam se refestelando em maravilhosas costeletas de cordeiro com vinho tinto. "De onde vocês são?" pergunta ele, curioso. "Do Brasil" digo eu, conformado. "Ah, sim! Carmem Miranda!" e faz com as mãos os trejeitos da dançarina. Pensei que realmente este lugar era fora do mundo... quanto fazia que não ouvia falar dela? Conversamos bastante. Ele perguntou se voltaríamos ao Brasil. Eu disse que não tínhamos a intenção de voltar. "Não está interessado em uma casinha em Swansea? Estou vendendo a minha." Pergunto: "Mas por que? É tão bonito aqui!" ao que ele responde: "Sim, só que é muito quieto. Chega um momento que ficamos cansados, queremos ir ao cinema ou ao teatro, e tudo fica a pelo menos 300 quilômetros de distância." Acho que concordo com ele. É bonito visitar esses lugares, mas quem tem a mentalidade urbana acha difícil ficar. Digo que infelizmente não estou interessado. Quando saíamos do restaurante, o homem vira para o nosso lado e lança uma que ele estava reservando para o final: "Bye bye, Brazil!", maroto, piscando o olho. Não era tão desatualizado afinal...

Um tempo depois percebo que o desatualizado era eu. Nesse exato mês era o aniversário de 50 anos da morte de Carmem. Ele sabia, eu não tinha nem idéia.

O vento sopra forte agora. Um assobio horripilante se ouve na noite escura. Vou dormir.



3 comentários:

Flavio Maria Rossini disse...

Vejo saudades do Brasil neste texto... Enfim, como estrangeiro morando no Brasil, afirmo que cada cultura tem sua contribuição a dar para "o todo"... Love... Gaia...

Zappi disse...

É mesmo. Umas semanas atrás jantei com um Francês que mora no Brasil. Ele disse que achava que eu gostava muito do Brasil mas me sentia traído. Acho que ele tem toda razão. Disse também que quem não gosta não ia ficar se importando com o que acontece por aí...

Percy disse...

Foi o que eu disse ha algum tempo atrás: você está aborrecido com o país porque foi praticamente obrigado a achar um lugar mais civilizado para viver. E isso não é fácil. Mas fico feliz em ver que você está encontrando lugares bastante interessantes.
Mantenha-nos informados.