2006-05-07

Wagga-Wagga - final


Fez a prova de Inglês. Havia compreensão escrita, compreensão verbal e duas redações. O problema das redações é que havia pouco tempo para fazê-las, uns 45 minutos para as duas juntas. Fernando pensou que o Presidente da República de seu país seria completamente incapaz de passar nesse teste, mesmo que fosse em Português, enquanto provavelmente esse pessoal do Zimbabwe passaria sem problemas.

Depois da prova escrita haveria uma prova oral, uma conversa dirigida. Quando terminou a prova escrita tinha ainda faltava uma hora para a entrevista.

Era perto da hora do almoço, o tempo estava radiante, a temperatura tinha subido bastante, fazia calor. Pensou no gelo que cobria o campo de manhã cedo. Agora o céu estava azul escuro, de tão límpido. Decidiu que não queria almoçar, daria uma caminhada pelo campus. Os edifícios estavam espalhados, eram de no máximo dois andares. Aqui e ali viam-se estudantes conversando. As placas indicavam: "Engenharia de Bio-sistemas" ou "Laboratório de Citologia". Um grupo parecia estar se reunindo para uma prova. Uma moça e um rapaz conversavam bem de pertinho: namorados, na certa. Fernando ia passeando e olhando, ouvindo mentalmente "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky. Promenade... Catacumbas... Baba Jaga... Um lago ao longe indicava o fim do campus. Não teria tempo de explorar tudo em tão pouco tempo. A Universidade de Wagga era muito maior do que imaginara anteriormente.

Já era hora de voltar para a parte oral do exame. Quando chegou lá uma moça com aspecto oriental estava à sua espera. Muito simpática, explica que gostaria de conversar um pouco antes do exame, e que as pessoas são tímidas e em geral não gostam de falar. "Não sou tímido, não se preocupe" disse Fernando. "Ótimo" disse ela. Ela ligou o gravador e começou a fazer perguntas. As primeiras, muito simples, e aos poucos procurando fazer com que Fernando respondesse verbalmente a perguntas mais e mais complexas. Continuou por muito tempo, talvez uma hora. Fernando estava se divertindo: ela começou a perguntar sobre o Brasil, sobre o Carnaval, o contraste entre a pobreza e a alegria na avenida. Ele tinha opiniões algo controversas sobre tudo isso, e fazia questão de transmití-las da melhor maneira possível, ela parecia entusiasmada com as respostas. Ela era Filipina, e também contou dos problemas de seu país. Em determinado momento, diz:

"Bom, é melhor você ir agora, senão vai perder o ônibus de volta para a cidade."

"Já acabou?" pergunta Fernando.

"O que?" pergunta ela.

"O exame!"

E ela:

"Ah, sim, só os primeiros quinze minutos eram o exame. Não notou que desliguei o gravador? Não, eu estava é curiosa a respeito e continuei conversando..."

Eles riram, Fernando não tinha mesmo percebido. Ela era uma graça mesmo. No fim disse:

"Sabe, em geral é duro fazer as pessoas falarem, mas com você foi muito divertido..."

Enquanto esperava o ônibus, Fernando pensou na estranha visita que o Brasil fez a Wagga, na entrevista... Tentou se lembrar de quem havia começado a conversa a respeito. Certamente deve ter sido ela... O ônibus passava pelas faculdades do campus e ia para Wagga. No caminho recolhia estudantes, que ruidosos, animavam o ambiente com conversas excitadas. Fernando puxou conversa com dois amigos que estavam sentados à sua frente. Logo descobriu que um era indiano e o outro paquistanês. Eles explicam:

"Nos nossos países somos inimigos, mas aqui somos os melhores amigos."

Eles se abraçam, debochados, para demonstrar o que diziam. O outro, em tom mais triste:

"É terrível o que os políticos fazem. Tive que vir para Wagga para enteder."

Um deles conta como foi o dia que, na Índia, descobriu que iria estudar em Wagga-Wagga:

"Pensei que era o fim do mundo, no meio do deserto, nunca tinha ouvido falar desse lugar. Quando cheguei tive uma fantástica surpresa: a escola é boa, a cidade é ótima, limpa, nem voltaria mais para a Índia, se eu fosse capaz de ficar longe da minha família"

Os indianos são muito apegados à família. Quando se casam, em geral ficam na casa dos sogros ou dos pais. Gerações costumam morar sob o mesmo teto. Nas cidades grandes isso está mudando e os núcleos familiares pequenos do mundo ocidental já estão se impondo mais e mais frequentemente.

A cidade era minúscula. Um lugarejo do interior da Austrália, a Universidade de Wagga atraía estudantes de toda a Asia e era o coração da atividade econômica da cidadezinha.

Na volta, nas longas horas sentado no trem, ficou pensando em seu país. Pensou em como o resto do mundo progredia, como até em Wagga tudo funcionava bem e o bom-senso imperava, enquanto uma mula analfabeta e um bando de ignorantes, ex-sindicalistas, jornalistas, padres e artistas estavam puxando todo o país para baixo, para poder, rápidamente, chegar ao objetivo final: converter o Brasil em uma gigantesca Angola.

3 comentários:

Shirlei Horta disse...

Muito bom. Muito bom. Continuarei sendo sua leitora. Eu acho.

Percy disse...

"Mula analfabeta cercada por um bando de ignorantes". Zappi, essa definição é realmente ofensiva às mulas...

Julia disse...

Zappi,

Realmente é triste pensar que o brasil tão imenso riquezas de sobsolo reserva hidrafluvial forestal com tudo pra ter laboratorio medical remedios forestas...penso em uma prima germanica diplomada em biologia e ganhou o segundo lugar de não sei o que não sei aonde e dai recebeu bolsa com tudo pago pra ingressar em um centro de pesquisa...E TUDO me sensibiliza quando leio e sinto lamentações justificadas no final deste post que como sempre você não deixa nada em branco!

Perfeito cher ami!