2006-09-23

Mau pressentimento

O aeroporto de Congonhas era o meu favorito desde criança. Os Electra me fascinavam, como aceleravam as hélices uma a uma e depois começavam a se mover lentamente na pista fazendo esse barulho de ventilador prestes a explodir. Era a partir de Congonhas que começavam todas as viagens, para mim era o portal para o desconhecido.

Muitos anos depois Congonhas passou a se comportar como um terminal de ônibus de luxo. Brasília, a mais desconexa e artificial de todas as cidades do Brasil, era semanalmente alimentada por vôos que levavam os políticos. Os de São Paulo eram clientes preferenciais do aeroporto.

Eu estava com um americano, Mr. Thomas, íamos visitar uma empresa em outra cidade. O vôo saía cedinho, tínhamos a intenção de voltar no mesmo dia.

Thomas era um sujeito afável, apesar de um pouco quietão. Mesmo assim, trabalhava com vendas. Desdobrava-se para ajudar com os problemas dos clientes, que em geral gostavam muito dele. Ele tinha uma certa curiosidade a respeito das coisas do Brasil... mas confessava que não entendia muito bem. "Por que importar é tão complicado?" - perguntava. Eu respondia do melhor jeito que podia, mas ele ficava intrigado: "Não percebem que se facilitarem as importações a economia melhora, melhorando também as exportações?". Tinha que admitir que havia muita coisa errada com a burocracia infernal desse paisinho de segunda. Quem conhece o edifício onde ficam os despachantes de alfândega em Cumbica sabe do que eu estou falando. É um buraco medonho onde - pasmem - despachantes sublocam pedaços de salas com escrivanhinhas sujas com porcas máquinas de escrever velhas em pleno século 21. É que só dá para preencher os formulários em 7 vias com essas. Rapazes carregando montanhas de papéis vão e vêm, lotando os corredores. Incompetentes sebosos catavam milho nessas máquinas, cuidando em fazer bastante barulho para que não se notasse sua lentidão. A técnica deles consisitia em apertar e soltar a tecla das maíusculas muitíssimas vezes, sem outra finalidade do que impressionar os outros com o som, passando a impressão de produtividade. Não era à toa que Thomas não entendia.

Bom, estávamos Thomas e eu no ambiente muito mais bonito de Congonhas, e entramos em uma sala de embarque. Thomas era muito religioso e acreditava em um fenômeno estranho chamado "arrebatamento". Bom, ele nunca confessou que acreditava, mas eu tenho quase certeza. Cada vez que a nossa conversa chegava perto de um tema sensível, ele se fechava um pouco... e eu não insistia. Parece que na primeira etapa do Juízo Final, Deus literalmente puxaria para cima os bons, deixando os pecadores sozinhos no mundo. Em um mundo só com gente ruim certamente aconteceriam todos os tipos de desgraça, aí que o demônio viria para juntar os que tivessem sobrevivido à carnificina e os levaria às profundezas. Não tenho dúvidas de que, num mundo assim, Thomas seria mesmo arrebatado.

Em determinado momento vejo um grupo de pessoas, em círculo. Reconheço uma delas. "Thomas, estamos com sorte" - disse eu, rindo- "Aí está o cara que é o favorito para presidente do Brasil nas próximas eleições". O Lula estava de terno e óculos escuros, rodeado por varios de seus "companheiros" vestidos exatamente da mesma maneira. Formavam um círculo de modo que Lula não precisasse falar ou cumprimentar ninguém. Parecia não querer ser visto, reconhecido. Thomas olhou para lá e perguntou: "Qual deles?" "O terceiro à esquerda" - disse eu.

Lula estava gordíssimo e parecia mesmo evitar os olhares dos que estavam ali. Thomas, que nunca tinha ouvido falar sobre nada da política brasileira ficou sério instantaneamente. "Se esse cara ganhar, que Deus os ajude." Olho para ele... O que ele estaria vendo nesse grupo? Inicialmente pensei que ele estivesse brincando e eu perguntei por que ele achava isso, meio zombeteiro. Seríssimo, evitou falar. Ante a minha insistência, disse: "Só olhe para eles. Não percebe quem não quer."

Olhei novamente para o grupo escuro. Imediatamente senti o que Thomas sentiu. Vi os abutres reunidos sob uma nuvem tenebrosa. Ele tinha razão. Não havia mesmo chance alguma de sair algo bom dali. Só não percebe quem não quer.


5 comentários:

Aluizio Amorim disse...

Boa zappi. E obrigado pela visita.

abs
Aluízio Amorim

Alexandre disse...

O seu modo tosco e truculento, debochado, desbocado e desaforado com as pessoas, não consegue outro tipo de companhia senão esta que vc e seu amigo viram em Congonhas.

Veja o que dizem no Livro "Viagens com o Presidente" que publiquei lá no blog.

Abç,

Bira disse...

seria uma visão "apocalipitica"?.
Em 1987 perdi a chance de voar nesse electra por conta do sistema de som queimado de congonhas e um colega de viagem apressadinho...mas o petralha que cheguei mais perto, foi o Vicentinho, cercado de 2 seguranças, no elevador do sindicato dos metalurgicos de SBC...foi por engano....BOA TARDE COMPANHEIRO, ouvi do cidadão...

Zappi disse...

Olá Bira.

Voar no Electra era uma delícia: fui muitas vezes para a Argentina e para o Rio. Ele voava a baixa altitude e a vista da janelinha era fantástica. No fim da tarde, quando o sol se punha, os gigantescos cumulo-nimbus se coloriam de tons alaranjados e passavamos pertinho, pertinho... Nunca vou me esquecer.

Orlando Tambosi disse...

O terrível é que 52 milhões de bananeiros nada viram....

Abs.