2007-09-24

Mais arte favelosa

Não é só "Gente Humilde" que institui a Favela Mental como norma. Milhares de músicas e marchinhas, filmes, documentários e textos escolares utilizam este artifício vagabundo. Funciona sempre do mesmo jeito, fala-se de miséria aos bem-nascidos e trata-se de estimular certas emoções cristãs. Querem ver um outro exemplo?

Lata d'água na cabeça
Lá vai Maria
Lá vai Maria


Já imaginamos o suplício de levar a porcaria da lata na cabeça no sol rachante do verão brasileiro. Os ingênuos acham que ela se chama Maria porque é um nome comum no Brasil. Lêdo engano: ela é Maria para estimular a associação com a Virgem Santa que pariu o Menino Jesus. Esta associação está sempre presente na arte da Favela Mental.

Sobe o morro e não se cansa

Aqui aparece o lado super-mulher: ela nem se cansa! O ouvinte sente inveja de um ser tão superior.

Pela mão
Leva a criança
Lá vai Maria


Como para reafirmar a santidade dessa Maria, ela leva a criança virtuosa que, talvez, venha a ser Jesus...

Maria
Lava a roupa
Lá no alto
Lutando pelo pão
De cada dia


Dá-lhe super mulher. Ela esfrega na cara de quem não sofre as virtudes da auto-imolação. A sua luta contínua e sofrida confere-lhe a superioridade moral dos santos católicos.

Sonhando com a vida
Sonhando com a vida
Do asfalto
Que acaba
Onde o morro principia


Maria no entanto sonha com uma vida melhor, que lhe é negada pelo abrupto término do asfalto, negando-lhe até o direito de andar num chão liso...

Como vêm, o método da Favela Mental é velho e usa sempre a mesma fórmula. Divirtam-se encontrando exemplos. Eu coletei dúzias. Sempre tentam enobrecer a miséria, causar um misto de culpa e pena no ouvinte que, enternecido com as próprias emoções, sai correndo para comprar o CD.

9 comentários:

ielpo disse...

Puxa, você está terrível nesta pequena mostra de posts "temáticos"...

O Brasil é um campo muito fértil pra uma combinação explosiva: fé cega e vagabundagem. Por isso, a cada coisa boa que acontece a primeira coisa que se ouve é "Graças a Deus", e a cada tragédia, vemos a resignação (ou acomodação?) de quem espera que as coisas vão melhorar espontaneamente, e a justiça será feita no dia do Juízo Final ("Deus sabe o que faz", etc).

Então, ao povo, entorpecido pela promessa de uma paraíso comprado à base de sofrimento e sacrifício (inclusive material), resta esperar, esperar, esperar, que "um dia vai melhorar", nem que seja depois de morrer e "ir pro céu". É difícil (ia usar outra palavra, mas deixa pra lá...) ouvir isto todo dia...

Abraço

Saramar disse...

Típico mesmo de mentalidade pobre.
Típico de países atrasados como o nosso que, nada fazendo para minorar a miséria, passam a glorificá-la.

beijos, boa semana para você.

Otacílio Guimarães disse...

Paulo, eu estou convencido de que quem estragou o brasileiro foi a igreja católica com a ajuda das seitas protestantes. Eu conheço bem o nordeste e a sua miséria. Não que o nordeste seja uma região inviável, muito pelo contrário: os nordestinos estão sentados em cima de uma mina de ouro e não sabem. Eu constatei isto quando, em março passado, fiz uma viagem de 32 dias pelo deserto australiano. O deserto australiano e muito mais inóspito, seco e inclemente que o nordeste brasileiro. Mas não tem pobreza. Só o aborigene é pobre porque não gosta de trabalhar, só beber e fazer artezanato. O povo do nordeste não perde uma das inúmeras romarias que existem em todos os estados. As mais famosas são as de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a do Padre Cícero em Juazeiro do Norte no Ceará e o Círio de Nazaré, em Belém. Atraem multidões do Brasil inteiro. Para tudo o que acontece de ruim, como as secas, a alta mortalidade infantil por causa do descaso dos governantes, o cachorro que morreu picado de cobra, etc. e tal, você ouve um mantra: "Foi Deus que quis assim". Quando não chove, o mantra é "Deus não quis. Seja o que Deus quiser". Ou seja, esperam tudo de Deus e não fazem nada por sí. Por isto, Lula agora é mais um Deus por lá, por causa das bolsas esmolas. Jamais perderá uma eleição. Já os moradores do deserto australiano não ficam esperando por Deus e vão à luta. Não importa de choveu, se o calor está de rachar, nada os detém em busca de seus objetivos. São mestres na arte de armazenar as águas da chuva: aproveitam qualquer buraco para fazer um reservatório de água. E isto com dinheiro do próprio bolso. Os nordestinos ficam esperando que o governo vá fazer um açude ou perfurar um poço arteziado para lhes dar de graça. Os únicos analfabetos naquela região da Austrália são os recém-nascidos, porque em cada pequena povoação tem uma boa escola, um pequeno hospital e, claro, uma igreja, usada mais como ponto de reunião social. E o pior de tudo é que no Brasil as artes incentivam e dão ênfase a pobreza. É raro o filme brasileiro que não trate do tema. É o velho complexo de vira-latas, como disse Nelson Rodrigues. O brasileiro tem um complexo de inferioridade tão grande, mas tão gigantesco, que para coroa-lo elegeu Lula presidente e tem como diversão, os mais esclarecidos, denegrir os Estados Unidos.

Peregrino disse...

Otacílio,
Por mais que me esforce para encontrar um contra-argumento, não consigo. Nesse caso, tenho de concordar com você. O nordeste brasileiro é mesmo um depósito de pobres vagabundos. Quando não chove, deitam-se à espera da chuva ou de um "dijitoro" como se diz pelas bandas de lá (DIJITORO é uma corruptela de ADJUTÓRIO). Quando chove, esperam a chuva passar, que ninguém é jumento para ficar tomando chuva no lombo. De quem é a culpa? De muita gente. Do colonizador português, da igreja, dos políticos e, principalmente, do próprio povo, que usa todos os artifícios (religião, voto etc) para ficar coçando.

Yuri disse...

Muito boa essa série de posts sobre favelas. Concordo imensamente com este ponto de vista. O povo brasileiro é, por natureza, acomodado. Está sempre à espera que alguém (ou algo) o ajude. A miséria e "cultura" da periferia vêm sendo endeusadas por artistas, políticos, "intelectuais" e mídia. Para comprovar isso, basta ligar na Rede Globo de televisão e assistir os programas que glorificam a favela. Sem preconceitos, já conheci muitas pessoas que viviam em favelas e a maioria lutou para mudar essa situação. Viver na favela não é bom, não é "legal", não é "cult". Viver na favela é uma imoralidade que este país (e outros!) já deveria ter eliminado. O maior problema que vejo com essa onda atual de glorificação da periferia miserável é a falta de vontade de mudar de situação que está sendo gerada. A população miserável está cada vez mais "conformada" em ser miserável. Isso cria um processo vicioso que pode não mudar nunca mais. É ruim ser orgulhoso, mas ter orgulho de ser miserável é MUITO PIOR!!!!

Yuri disse...

Em tempo... Um ótimo exemplo relacionado ao meu comentário é o refrão de uma "música" (Funk Carioca se não me engano!) muito conhecida.
"Eu só quero é ser feliz,
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar."...

ielpo disse...

Como diria o Chávez (Calma... o do sbt, não o Huguito...)

ISSO, ISSO, ISSO!

geise disse...

Eu tenho uma visão diferente da sua, não acho que essas músicas tenham o intuito de fazer o rico ter pena do pobre e sim fazer o pobre se sentir um herói e ficar com a boca bem fechada diante das desigualdades sociais, como quem diz:
- Olha, como é heróico ser pobre, então se somos pobres somos heróis e vamos calar a boca.

Yuri disse...

Geise, na verdade serve para os dois propósitos... Tanto para glorificar a miséria quanto para fazer os ricos se sentirem menos culpados. O problema maior é que, há algum tempo atrás, isso era restrito a poucos artistas e intelectuais e, atualmente, este tipo de produção está sendo massificado pela mídia. O último post do Zappi (1o depois deste) foi sobre uma entrevista com "Mano Brown" no programa Roda Viva da TV Cultura, isto mostra como esse tipo de pensamento está sendo massificado, até mesmo em uma emissora considerada uma "ilha de qualidade e conteúdo" no meio televisivo brasileiro. A situação está cada vez pior e, pelo visto, só tende a piorar. Acho que vou seguir os passos do Zappi e acelerar meus planos de sair do País (acho que devia ter escrito com minúsculas!).