2006-07-04

Os 3 votos de Lula - 3. O espírito de porco


Voto número três: O espírito de porco

De todos este foi o único que veio em minha casa.

Um tipo meio macambúzio, derrotado. A mulher dele, muito mais esperta e prática, leva a família nas costas. Ele, desempregado há muitos anos, é balofo e triste. A imagem da incompetência e falta de confiança em si mesmo. Nunca olha para ninguém nos olhos. Quando fala, parece que está falando consigo mesmo.

"Zappi, o Abelardo vai votar no Lula" - disse uma amiga, na festa.

Eu não conseguia acreditar. Não conhecia ninguém que votasse nele. O Abelardo tinha declarado seu voto ali, na frente de todo mundo? Não fazia sentido, mas confesso que fiquei incrívelmente curioso. O que levaria alguém a votar no sapo barbudo? Bom, até podia imaginar razões, mas não para quem tivesse estudado, não fosse um doutrinado enlouquecido à la USP...

Este cara era um enigma. Imediatamente, todas as atenções se voltaram para ele. Macambúzio, não queria responder. Parecia sentir-se muitíssimo incomodado com essa súbita popularidade. Não dava razões coerentes.

"Mas ele é analfabeto!" diziam-lhe

"Não vai ser ele que vai governar, tem um pessoal que vai fazer o serviço"

Devia estar se referindo ao Zé Dirceu e a cambada de ptrambiqueiros.

"Ninguém sabe o que esses caras vão fazer, tem mentalidade de funcionário público e querem estatizar tudo para meter a mão em um bolo maior. Lembra da privatização das teles? Antes conseguir um telefone era impossível e ligar para o exterior custava 5 dólares por minuto, agora..."

"Eu não ligo para o exterior."

Assim seguia a conversa. Fiquei com mais pena ainda do Abelardo. Estava cada vez mais encolhido, encolhido, até que explodiu inesperadamente.

"Vocês querem saber por que vou votar no Lula?" - disse, quase gritando.

"Não é por que ele vai melhorar o Brasil. É claro que não vai. O cara é um lixo, e o PT só sabe fazer baderna. Mas vou votar assim mesmo, e sabem por que?

O silêncio era estarrecedor. Abelardo tinha se descontrolado...

"Porque eu estou desempregado há anos. Nunca consegui um emprego em minha vida. Vocês tão todos aí, numa boa, e eu estou ferrado. E não tem jeito, vou contiuar ferrado. Não pensem que eu acho que o Lula vai gerar empregos não, é claro que não vai. A economia não vai melhorar com ele, pelo contrário. Mas voto nele. Voto porque quando ele fizer o que ele quer fazer ninguém mais vai ter emprego, vocês vão estar tão ferrados como eu estou agora e vão sentir na pele o que é a minha situação. Por isso voto no Lula."

A mulher do Abelardo não sabia onde se enfiar. Todos os demais olhavam para o lado, desconversavam... Nada adiantaria. Abelardo tinha um motivo mais do que lógico para votar no analfabeto: queria que o Brasil inteiro descesse até seu nível. Isso é o que eu chamo de um voto consciente...




Esses são os tres votos do Lula. O desafiador é também o 'formador de opinião'. Esqueçam aquela história besta de que a classe média educada é formadora de opinião... isso já era. A classe média mal existe. A divisão entre pobres e ricos no Brasil faz com que cada uma das 'castas' tenha seus próprios formadores de opinião... a classe média não conversa com favelados. O 'covarde ressentido' é a maioria absoluta, fará o que tiver que fazer para levar uma vantagem, mas um dos valores nítidos que percebe é o de se vingar dos patrões que o subjugam. Ele se sente continuamente humilhado pelos poderosos e o Lula, incentivando a divisão, incita este a votar 'contra' o patrão.

Tanto o 'desafiador' como o 'covarde ressentido' vivem à margem do Estado. Não se pode nem dizer hoje que o Brasil esteja presente em uma favela ou vila onde 'a polícia não entra'. Isso já é um estado paralelo. Quem garante a segurança lá? As máfias. O PCC almeja ser o principal desses estados paralelos. Para quem não sabe, organizações terroristas do tipo Hamas tem braços assistencialistas, cuja função é ganhar as almas dos miseráveis que vivem nesses estados paralelos. Assim, a segurança é por conta da máfia, e a creche também. O PCC já está fazendo isso. Responde pelo simpático apelido de "Pessoal". O "Pessoal" arranjou a creche. O "Pessoal" está cuidando da segurança na favela. Claro que nesses lugares existe a pena de morte, mas ninguém se importa. Como o 'desafiador' disse: o 'tráfico' perguntou pra dona Marta...

O 'espírito de porco' transcende as classes sociais. Ele existe e é abundante em todas elas. Simplesmente dá um sabor bem brasileiro à máxima: "Se não consigo subir, trato de derrubá-los." Este poderia ganhar um pouco se entendesse o simples fato de que derrubando os demais, todos descem.

Só há uma saída, portanto: ganhar os 'formadores de opinião' e entrar no estado paralelo. Só assim, só se o Brasil se converter em uma Nação, cujo poder é reconhecido e único e a justiça funciona e é uma só, somente assim será possível puxar eleitores pela orelha e fazê-los subir, todos juntos, rumo ao progresso.



2 comentários:

Aluizio Amorim disse...

Zappi:

Grato pelo seu comentário no meu bloguinho e aqui estou conferindo a sua sugestão de leitura. O que vc coloca é razoável. E concordo. Mas, embora praticamente liquidada, ainda há um pouquinho de classe média no Brasil. Talvez mais quatro anos de Lula, com um arrocho fiscal que aumente a alíquota do IR na fonte, daí então realmente a classe média desaparecerá por completo. Entretanto, deve-se assinalar que a classe média é o locus onde emerge os professores, os intelectuais, os empresários, os técnicos, os cientistas, os oficiais militares...Portanto, ainda se tem uma pequena parcela dessa classe e que pode influir em termos eleitorais. E tanto é verdade que os estrategistas de Lula tentam, de alguma forma, armar um discurso para essa parcela da sociedade. Vamos ver.

Cordial abraço do

Aluízio Amorim

shirlei horta disse...

Paulo, acredite se quiser, a "claque" arrebanhou mais um sem número de tipos que votarão no Noço Guia. Lavagem cerebral, do tipo crente evangélico, tem de monte. Raivosos (desde sempre) e com dores fundas, fazem verdadeiras "transferências" no sentido freudiano do termo. Não gostam de ninguém, nem de si mesmos. E há os que efetivamente acreditam no homem. Não me pergunte, não vou saber responder, mas existem. A esmola fez escola por aqui. Continuo sonhando com Paris.