2007-05-17

Crendices inofensivas

Há uma antiga tradição chinesa que diz que toda a família terá azar eterno se o patriarca morrer sem deixar um neto homem na linha de sucessão. Ou seja, o chinês tem que ter um filho homem, e esse filho deve ter por sua vez um filho homem para que a má sorte não arruíne a família.

A princípio poderia parecer uma crendice inofensiva. Entretanto muitíssimos chineses a levam a sério até hoje, com resultados desastrosos. O que poderia entretanto ser tão terrível nessa forma de pensar?

Imaginem que o patriarca da família tenha uma filha menina. Imediatamente tem que tentar outro, ou a linha sucessória se interromperá... só serve o filho do filho. Aí, que azar! Outra menina, e outra. Isso acontece. O quarto filho é um menino. Ótimo! Agora o patriarca se preocupa em casá-lo o mais rápido possível. Quem sabe aos 17, afinal não há tempo a perder... Aí... outra menina. Tentou de novo e... finalmente, um menino.

Parece engraçado, mas não é. Em meros 21 anos, essa família gerou 6 descendentes, só para evitar má sorte. O problema é que isso acontece na China e outros países do oriente. Superpovoados e pobres. Adivinhem porque? Cada geração faz a mesma coisa, repetindo a tradição, sem pensar.

Alguns dirão que exagero, que não é bem assim. Eu já vi isso acontecer em mais de uma ocasião. O que é mais interessante: quando confrontamos um chinês com o absurdo da sua crendice ele fica ofendido. Diz que não é crendice, que é importante. Que é coisa séria. Que o espírito da família é transferido aos primogênitos e que... Como se não fosse óbvio para qualquer um que essa crendice é estúpida! Acreditem: essa besteira hoje é responsável pelo fato da China ter um quarto da população mundial. Uma divertida ilustração do problema encontra-se no ótimo filme de Ang Lee "Banquete de Casamento".

É mais difícil perceber quão perigosas são as crenças quando nós somos os que acreditamos. Vou citar como exemplo a famosa linha tão repetida ultimamente de "A vida começa após a concepção". Isso é o que dizem todos os contrarios à descriminalização do aborto. Para começar, é mentira. Tanto o óvulo como o espermatozóide que participaram na "concepção", ou seja, na fertilização do óvulo, estão vivos. Ah, dizem os que defendem essa crendice, mas só é vida 'humana' após a fertilização. Humana? O que tem de humano em uma célula? Quando coçamos a cabeça milhões de células são mortas e ninguém reclama. Um óvulo fertilizado é uma célula, sem cérebro, sem sentimentos, sem sensações. Só um louco acharia que está cometendo um crime destruindo tal entidade. Não há sofrimento algum envolvido. Esta crença também não é inofensiva. Criminalizando o aborto, efetivamente condenam-se à morte milhares de mulheres que vão procurar auxílio em curandeiros, mulheres que ainda podem ser condenadas à prisão pelo "assassinato" que só existe na cabeça de quem crê que uma célula é um bebê.

Há muitas mais crendices aparentemente inofensivas mas que na prática causam milhões de mortes. Por exemplo, a crença de que camisinha é pecaminosa e não deve ser usada, ou a de que anticoncepcionais são contra os desígnios de um ser supremo. Alguém tem alguma idéia do sofrimento e do mal que essas crenças, espalhadas de maneira indiscriminada por uma igreja que oficialmente prega a 'bondade' estão causando? Mascarando-se de boa e querendo impor uma moralidade irreal e falsa, efetivamente espalha a AIDS pela África e pelo mundo. Qualquer pessoa que usa o cérebro nota imediatamente.

Há outra crendice, muito popular no Brasil e no Irã. É a crença de que a "fé" é uma virtude. Fé não é nada mais do que acreditar em algo sem evidência, desligar o próprio julgamento crítico para poder aceitar algum conceito imposto. Qual o problema desta crença? Ela anula o pensamento. Isso é muito mais grave do que pode parecer. Descrevo um exemplo das conseqüencias terríveis de tomar a fé como uma virtude.

No Brasil o aborto é permitido em casos de anencefalia, defeito genético fácilmente diagnosticável ainda na gravidez. O resultado da anencefalia é o nascimento de um monstruosidade horrenda: um ser com todos os órgãos, exceto o cérebro. Ele nunca vai poder pensar, ele nunca vai enxergar, ele nunca vai ouvir, na verdade nem vai sobreviver pois até o ato de engolir é determinado pelo cérebro. Jamais desejaria a ninguém ter tal desgraça na família. Quem já viu essa monstruosidade sabe do que estou falando. Pois bem, até alguns dos mais ferrenhos opositores ao aborto são a favor quando ocorre esta desesperante e trágica condição.

Uma agricultora, extremamente ignorante e católica, decidiu que mesmo podendo fazê-lo, não abortaria o seu filho defeituoso. Entendo que isso é um direito de opção, a mãe tem o direito de decidir o que vai fazer em uma situação como esta. Pergunto-me, entretanto, se essa mulher foi devidamente informada sobre a monstruosidade que estava gerando. Acredito que não.

O impressionante vem agora: os que defendem a fé como virtude pularam em cima dessa desgraça pessoal e chamaram a decisão dessa mulher um "exemplo moral" (veja aqui). Pensei inicialmente que talvez fosse um engano, mas artigos subseqüentes me fizeram perceber que não era. É só uma conseqüência de achar que a fé é uma virtude e achar que o pensar não o é. Na defesa dessa decisão baseada na ignorância aproveita para atacar a ciência, fazendo pouco caso dos avanços que proporcionam a melhora na qualidade de vida das pessoas. O sofrimento dessa mulher é um sofrimento inútil, proveniente da própria ignorância e explorado pela religião. Os cafetões da pobreza são necessariamente também cafetões da ignorância.

Eu não dou procuração para ninguém pensar por mim. Se estou errado, admito. Não há bem mais valioso no mundo que a capacidade de pensar por si próprio. Quem defende a fé merece a minha repulsa, pois insidiosamente insere no mundo a idéia de que pensar pode não ser bom, aliviando a consciência dos que tem a mente preguiçosa. Sem contar que o conceito em si é ridículo. "Fé" simplesmente significa dar uma procuração para algum religioso pensar por você. É a base da carolice ou do islamismo radical. É também a base do lulismo. "Tenho fé em Deus e no Lula, a nossa vida vai melhorar, tenho muita fé". Colocar um ignorante como presidente é um ato de suprema fé, sem dúvida. É como santificar a ignorância da mãe da criança sem cérebro.

Quando criticamos os políticos brasileiros que se aconchegam ao Lula, sabemos por que o fazemos. Eles pegam carona no carisma que o Lula tem com os ignorantes. Ideologicamente parecem seguir a um Deus, quando sempre dizem "sim" cegamente a quem detêm o poder. Não há diferença entre estes e os que lambem as sandálias de alguém cujos ensinamentos são absurdos e contraditórios, só porque ele é o chefe supremo de uma grande e poderosa seita religiosa. Moralmente ambos são equivalentes. Ciro Gomes pertence à primeira categoria. O Reinaldo Azevedo à segunda.

Fé e ignorância andam sempre bem juntinhas, de mãos dadas. O nosso salvador não virá através de quem estimula a fé em detrimento do conhecimento. Não dêem procuração para ninguém pensar por vocês. A nossa salvação só pode vir de nós mesmos.


8 comentários:

julio@icaroartes.com disse...

Concordo e combato também a fé cega.
Assim com tenho absoluta certeza que o homem só se redime através do conhecimento; mas a fé ainda cumpre um papel scundário, enquanto nesse estágio acéfalo cuja característica assinalada recentemente no lulismo ocupa o lugar da vontade.
Sim. A vontade é realmente um atributo da mente.
Onde não há ainda a mente gerando vontade fica o ser à mercê dos políticospastoresetal.

Anônimo disse...

Com a perspectiva de uma explosão populacional, a China implementou rígidas leis de controle de natalidade nos anos 70. A famosa lei que permitia que cada casal tivesse somente um filho aparentemente fez efeito. O índice de natalidade caiu - a população na virada do século era de 1,2 bilhão de pessoas, contra a previsão de 1,5 bilhão se não houvesse o programa. Há indícios, no entanto, de que o sucesso do controle foi obtido às custas do desrespeito aos direitos humanos - os relatos de abortos forçados e esterilizações compulsórias atraíram condenação da comunidade internacional. Surgiu também um fenômeno trágico: a multiplicação dos casos de infanticídio. Como os homens são mais valorizados por sua força de trabalho braçal nas áreas rurais, muitas meninas eram sacrificadas por causa da lei de um filho por casal.

Fonte: Revista Veja.

Zappi disse...

Obrigado Anônimo. A revista Veja não entendeu. Na verdade a razão pela qual matam bebês recém nascidos é essa crendice aí, da continuação da linhagem, combinada com a política chinesa de um filho por casal.

Como a história toda é absurda, a Veja disse algo sobre "valorização do homem" pela força física.

ielpo disse...

Bravo! Uma das melhores leituras sobre o assunto dos últimos tempos. Certamente um tanto indigesta para a grande maioria, que prefere as trevas das crendices ao esforço do pensamento crítico. Como o ser humano segue a lei do mínimo esforço, a opção pela irracionalidade da fé é, acima de tudo, uma justificativa cômoda e universalmente aceita para compartilhar (com Deus, ou com as tradiçoes, tanto faz) as nossas culpas e frustrações. Basta comparecer (de corpo presente serve) pontualmente à missa do domingo, de preferência contribuir com o seu dízimo, para obter a remissão dos pecados. Crédito fácil e sem burocracia. "Lavou, tá novo!"

Anônimo disse...

1 - VATICÍNIO-Será que essa coisa do Governo pontifício condenar o uso de anticoncepcionais, principalmente aos povos da América católica, tem algo a ver com a formação de um estoque de Almas capaz de enfrentar a onda demográfica(reserva de mercado)Asiática?

2 - CRENÇA-Uma notícia recente nos informava que um "pai" indiano havia enterrado (vivas) suas filhas gêmeas. Não bastasse, o mesmo artigo mencionava a suspeita de que, somente nas duas últimas décadas, a Índia teria tolerado a execução (pelos próprios pais) de 10 milhões de recém-nascidos do sexo feminino. Haja crença (e estômago) para mais essa barbárie... QUÉ SABÊ? VÔ NA VENDINHA TOMÁ UM PINGÃO!!(verso de Chitãozinho e Chororó)

Bira disse...

Ouço diariamente por aqui que é a vontade de Deus.
Tambem deve ser a vontade de Deus, crianças arrastadas no asfalto e pais de familia fuzilados em semaforos.
Nem menciono o sadismo santo das escolas de lata e hospitais públicos.

Anônimo disse...

Zappi,

Ocorre-te que nem todas as pessoas são contrárias ao aborto por conseqüência de uma "lavagem cerebral" religiosa?

Você está correto quando afirma que geneticamente um óvulo fecundado equivale a uma ameba, mas qualquer pessoa minimamente informada sabe que a maioria das intervenções não é realizada neste "estágio ameba", e um feto de 12 semanas é bem mais que um aglomerado de células. Seu argumento é coerente para a questão do estudo sobre células troncos.

Reivindicar do estado preferência às mulheres (que não fizeram uso de contraceptivos) que desejam exterminar seus fetos a aquelas que lutam pela sobrevivência dos seus é crueldade em estado puro.

O Sistema Único de Saúde é uma lástima, uma consulta com especialista demora 8 meses, pessoas morrem aguardando atendimento, mulheres e bebês perdem a vida por falta de cuidados BÁSICOS no pré-natal, como se isso não bastasse, ainda sou obrigada a aturar esse ministro da saúde discursando sobre legalização de aborto?

Não estaria em curso um desejo de antecipação dos procedimentos que o Brasil deve copiar dos países desenvolvidos?

O fato é que desinformação aliada à mentira também é uma arma poderosa.

Zappi disse...

Caro anônimo,

Gostei de suas objeções.

Você está correto ao dizer que um feto de 12 semanas é bem mais que uma ameba. Entretanto o sistema nervoso ainda mal funciona e por esse motivo não é o "assassinato" que muita gente propala, normalmente por fanatismo religioso. Eu não gostaria de ver abortos no fim da gravidez, acho um limite de 12 semanas prudente.

Quanto a reivindicar preferência, não se trata disso. Um aborto é um procedimento que quando bem feito leva minutos e normalmente não gera complicações. Hoje mais de um milhão de abortos clandestinos ocorrem, com uma taxa de complicações da ordem de 25%. Estes são atendidos no SUS, que, como você disse é uma lástima.

Com o aborto proibido, o SUS é mais sobrecarregado do que com o aborto permitido e fornecido gratuitamente. O motivo? O menor número de complicações.

Quanto mais o Brasil copiar os países desenvolvidos, melhor. Só assim tem chance de melhorar.

Um abraço,
Zappi