2007-10-18

Cisco

Vocês viram no jornal (veja um vídeo aqui) que a Cisco contrabandeava equipamentos em quantidades monstruosas para o Brasil.

A Cisco é uma gigantesca empresa global que é responsável por uma parcela significativa da infraestrutura de rede de empresas e sistemas de internet. Quando uma rede cai, os prejuízos podem ser de milhões de dólares por minuto. A Cisco mobiliza uma equipe que traz um avião cheio de equipamentos para consertar a rede.

Tem um pequeno probleminha: o Brasil. Toda a agilidade da Cisco é completamente destruída pelo monstruoso e imbecil sistema de comércio exterior brasileiro. O Brasil é tão incompetente nessa área que é impossível exportar bananas devido ao tempo que leva para conseguir a documentação. Veja o artigo "Yes, we have bananas, we just cannot ship them", publicado no New York Times: clicando aqui. Se um país é incapaz de lidar com bananas, o que dizer de equipamento de alta tecnologia, cujo valor cai de maneira vertiginosa à medida que concorrentes lançam versões mais adiantadas?

Para contrastar, vou explicar como funciona em países civilizados, já que a gloriosa nação das favelas zumbi não gosta de se comparar aos países que funcionam.

Exportação: Você pega e manda a mercadoria com um "packing list". A "invoice" ou nota fiscal vai depois, pelo correio. O importador declara o que recebeu e paga os impostos. Se ele tem que pagar o exportador antecipadamente, ele simplesmente manda uma remessa. Declara depois. Só isso.

No Brasil o sistema é tão demorado e monstruosamente complicado, que há um prédio cheio de despachantes em Cumbica, só para lidar com a papelada. Os milhares de boys indo e vindo com montanhas de papel lembram os sonhos dos mais nefastos burocratas. É um espetáculo grotesco, quando eu vi pela primeira vez tive vontade de vomitar. E os brasileiros acham tudo isso normal.

Empresas como a Cisco tem duas opções: ou ficam fora do mercado e sujam seu nome no Brasil fornecendo um serviço porco de segunda categoria ou fazem o que a Cisco fez: trambique. A Cisco não é a única, quanto a isso podem ficar tranquilos.

Mudar o sistema? Jamais. Os comunas do governo acham o atual muito interessante: eles tem o poder de fechar qualquer companhia que tenha qualquer conexão global. Poder de vida ou morte. No mais puro estilo soviético. A glória da nação favelada ficará assim para sempre exaltada nas letras dos samba-enredos.

8 comentários:

MARIO GENTIL COSTA disse...

ZAPPI, NÃO NEGO QUE ÀS VEZES, POR SER BRASILEIRO E GOSTAR MUITO DO BRASIL, NÃO ME SINTO BEM COM SEU PESSIMISMO, MAS RECONHEÇO A BOA-FÉ COM QUE EXPÕE SUAS IDÉIAS. NO CASO, POR EXEMPLO, ACHO QUE PAGAMOS O PREÇO DE TERMOS HERDADO A ANTIQUADA E EMPERRADA BUROCRACIA TUPINIQUIM DE NOSSAS ORIGENS CATÓLICO-LUSITANAS, A MESMA QUE FEZ DE PORTUGAL, DURANTE SÉCULOS, O PAÍS MAIS ATRASADO DA EUROPA OCIDENTAL. E A CULPA REMOTA, A MEU VER, SERÁ SEMPRE DO VATICANO. ABRAÇO. MARIO

Zappi disse...

Olá Mario,

Entendo perfeitamente os seus sentimentos. Entretanto, não faz diferença alguma "de quem é a culpa". O Brasil tem que mudar já, se não o fizer, só ficará mais e mais atrasado. Eu vivi e trabalhei no Brasil por mais de 40 anos, sempre esperando que alguma mudança fosse melhorar a situação geral da economia. Quando algo bom acontecia, "desacontecia" em seguida.

Mudanças são para já. Não importa de quem é a culpa. Hoje a culpa é do governo que aí está: eles é que tem que mudar.

Antonio Carlos Silveira disse...

Salve Paulo!!

Tenho boas noticias.

Sou um importador regular do Brasil e a tramitacao aduaneira e feita em poucs horas, ou seja, se encomendo hoje um produto disponivel em estoque em Cachoeira Paulista-SP, eu o terei aqui nos suburbios de Miami terca feira aa tarde "apos pagar os impostos".
A Cisco me parece que nao gosta eh de pagar impostos. Se a alegacao e de burocracia para liberacao de produto, eu garanto de que eh bla=bla=bla.
Abraco,
Cacai

Zappi disse...

Oi Cacai,

Lembre-se que você está do lado de lá, como eu. Fico feliz em saber que a burocracia para exportação foi diminuída, mas quem importa paga ICMs que incide sobre II e outras taxas ridículas umas incidindo sobre as outras, incluindo uma contribuição compulsória para o sindicato dos fiscais aduaneiros. No fim o imposto para quem importa soma algo como 40 ou 50% e tem que ser pago no ato. Não justifico, mas é um incentivo forte para o trambique, não é?

Mais ainda: se você tem que competir com contrabandistas chineses que nunca são pegos, acho até natural que uma firma arme um esquema desses. Afinal a opção é trambique ou morte.

pait disse...

Zappi, você pegou num bom ponto. Essas burocracias de importação são um desastre. Mandei uma mensagem para a turma da Poli dizendo que se não fossem os contrabandistas a gente ainda estava usando o PC XT. Até perguntei se você estava ouvindo...

Anônimo disse...

Zappi, com certeza há muita burocracia e tributação absurda. Comprar qualquer produto em Miami e receber via Fedex vai custar mais de 100% de impostos. Importação no modo normal significa pagar impostos sobre frete e em cascata. O brasileiro comum além de mais pobre que cidadãos de países desenvolvidos paga sempre muito mais caro por produtos de tecnologia. Qualquer pessoa que vive aqui sabe que o país não é sério, é governado por uma quadrilha, porisso eu entendo a situação da Cisco (e de muitas outras empresas).

Maria do Espírito Santo disse...

Zappi,
o seu jeito brilhantemente objetivo de lidar com a estupidez grotônica me deixa encantada! Como eu gostaria que você passeasse por um dia apenas na inútil repartição pública onde eu trabalho, pra poder pôr a nu o que eu não posso fazer sob risco de ser demitida "a bem do (des)serviço público..."
Adoro os seus posts. Os seus, os do Tambosi e os do Paulo Roberto de Almeida. Beijos e parabéns!

Marcelo disse...

Zappi,

Estou com peças de motor retidas pela receita federal em Viracopos. Foram uma doação de um colega de uma Universidade nos EUA. Eu usaria num projeto em que estão envolvidos alunos de mais de vinte universidades, em seis países. A burocracia para importação e exportação é tão complicada no Brasil que nossa participação será apenas "virtual" (Desenhos em CAD, programas de computador...). Só espero que não arrumem uma maneira de taxar bits...