2007-10-27

Tabus brasileiros

Talvez este post devesse se chamar: "O que é que faz o brasileiro parar de pensar?". Refiro-me aos assuntos que deixam os brasileiros batendo pino, travando o motor, balbuciando besteira. Vamos ver...

Aborto. Só a palavra gera calafrios nos brasileiros. Igualam a palavra a assassinato com a facilidade de quem se acha expert no assunto. Uma novidade: só o Brasil, o Vaticano e um punhado de países atrasados acham isso. Por que? Porque a morte de uma simples célula, o óvulo fertilizado, não pode ser chamada de assassinato por qualquer pessoa com um mínimo de inteligência. Infelizmente este assunto não parece ser entendido pelos brasileiros, que consideram uma "obscenidade" que uma mulher possa decidir se quer ou não ter um filho. Se está na miséria ou não, se o filho tem pai ou não, se ela tem 12 anos ou não, nada disso importa. Só ressoa histericamente a correlação "aborto = assassinato".

Não adianta lembrar que a maior parte das gestações termina naturalmente em aborto. A natureza faz o que pode para impedir que nasça um ser defeituoso. Isso não tem nada de estranho não: múltiplos defeitos genéticos causam essa reação natural no organismo. Aí, quando alguém menciona a prática comum nos países civilizados de promover o aborto de monstruosidades - sim, monstruosidades como anencefalia, siameses, débeis mentais e outros - vem sempre alguém para gritar: "Eugenia! Nazismo!". Eu me pergunto simplesmente por que uma mãe tem que ser obrigada a passar a vida inteira sofrendo para cuidar de um ser defeituoso. Se for possível impedir, qual o problema?

A correlação entre "eugenia" e "nazismo" é totalmente despropositada. O que significa eugenia, afinal? É a tentativa metódica de melhorar o ser humano por meio de reprodução seletiva. Bom, é também o que todo mundo faz, quando consciente ou inconscientemente escolhe a parceira ou é escolhido por ela. Contra isso ninguém reclama, não é mesmo? Não sonham todos em ter filhos saudáveis, felizes e inteligentes? O que tem isso a ver com totalitarismo nazista? Eu diria que esse desejo é a base da liberdade individual.

O problema é que os assuntos que travam totalmente o cérebro brasileiro não acabam aí. Já que o aborto é definido por consenso como assassinato, o ataque passa a ser contra métodos anticoncepcionais. Eu pergunto novamente, quem é que nunca ficou apaixonado? Será que no calor da paixão todo mundo age racionalmente, lembra da camisinha, etc? Sempre acontece algo imprevisto. Se os métodos anticoncepcionais são tabus, proibidos, ilegais e inaccessíveis os únicos que não terão filhos não programados serão os assexuados. Eu suspeito que sei a razão de tanta fissura para tentar impedir o sexo.

Eu acho que os frustrados, os que tiveram filhos 'por acidente', os que tiveram filhos não desejados, os que foram filhos não desejados, os que nunca viveram uma paixão e os assexuados estão tentando se vingar. Já que são infelizes, querem também forçar infelicidade aos demais, enfiando o nariz no sexo dos outros. Como? Proibindo anticoncepcionais, já que não conseguem proibir sexo... ainda. É a apoteose do espírito de porco. É a tara mais profunda e nefasta. Suspeito que todos os que tentam proibir o aborto pertencem a esta triste categoria.


8 comentários:

Orlando Tambosi disse...

Diria que o aborto é tabu mais para os homens religiosos do que para as mulheres. Entre as mulheres (e dou aula para jovens), o aborto é encarado com naturalidade.
Barbado carola é que é contra.

Zappi disse...

Acho que tens razão, Tambosi... Barbados carolas e frustrados...

ielpo disse...

Permitam-me fazer uma observação.

O aborto (para mim direito inerente da mulher em casos selecionados), havendo disponibilidade de métodos anti-concepcionais (pílulas, DIU, injetáveis, esterilização voluntária), não seria uma boa opção como método anti-concepcional, pois implica em riscos desnecessários, em comparação com os outros métodos.

Trata-se de um procedimento anestésico-cirúrgico (claro, de pequeno porte, mas ainda um procedimento complexo, chamado de "curetagem"), geralmente executado sob anestesia geral (com todas as suas implicações, e digo isso pois sou anestesiologista), necessitando de internação hospitalar, havendo riscos como perfuração uterina (mesmo nas mãos dos ginecologistas mais hábeis), infecções, aderências pós-curetagem, entre tantas outras. Riscos plenamente justificados em várias situações, mas ao meu ver, desnecessários quando houver disponibilidade de outros métodos menos invasivos.

Partimos então para o outro lado da questão. A grande maioria das mulheres, principalmente das classe baixas, não tem capacidade cognitiva para tomar um anticoncepcional oral corretamente. Por que então o Minstério da Saúde não disponibiliza amplamente os métodos injetáveis, tão ou mais eficientes que a pílula, com a vantagem de sua aplicação ser feita uma vez por mês, ou até uma vez a cada três meses? Muito mais fácil, não? Ou então o DIU, que é colocado ambulatorialmente, e pode durar até 10 anos!

Acho que não existe, na verdade, interesse político em diminuir o rebanho eleitoral cativo, criando um número cada vez maior desta sub-raça indigente que tem o fantástico poder do voto e que pode ser facilmente comprada com algum Bolsa-Miséria da vida. Quem sabe alguns deles não continuam tornando-se bandidos, simplesmente para perpetuar a idéia de que a desigualdade social é que gera a violência, pois na verdade a bandidagem é que é a vítima da sociedade injusta?

Abraços!

Zappi disse...

Ielpo, sei dos riscos e dos problemas associados com o procedimento. O que acontece é que sem a legalização o governo jamais vai disponibilizar meios anticoncepcionais seguros e eficientes para a população pobre.

O aborto deveria ser um último recurso, mas é um recurso necessário não só para evitar diversos tipos de catástrofe mas também para que outras ações sejam tomadas para permitir que as mulheres exerçam seu direito de escolha.

De qualquer maneira, quando bem feito, o procedimento é mais seguro do que uma gestação levada a termo, que também tem seus riscos.

ielpo disse...

Zappi,

Concordo plenamente, uma gestação também é uma situação de agravo à saúde da mulher (principalmente quando indesejada), já que esta ocorre mais frequentemente na adolescência, o que configura automaticamente uma gestação de risco.

E, pior, como você mesmo já frisou, proibido ou amaldiçoado pelas leis e pelo obtuso senso comum, o aborto continua sendo praticado aos montes, por parteiras, benzedeiras, xamãs, o diabo a quatro! Quantas e quantas vezes atendi mulheres, às vezes meninas, com quadros tenebrosos de perfurações ou infecções generalizadas por causa de um aborto "caseiro"... Coisas perfeitamente evitáveis se realizadas dentro das normas de biosegurança, e claro, por um médico habilitado...

Mas, infelizmente, continuo achando que mesmo legalizando o aborto (como seria bom se isso fosse uma realidade próxima!) o governo continuará omisso como sempre foi na questão do planejamento familiar. É interessante (para eles) a idéia da perpetuação da miséria humana, da ignorância, das favelas, pois isso significa a perpetuação do poder...

Maria do Espírito Santo disse...

ô meu muito querido quase conterrâneo Ielpo,
"Quase sempre com anestesia geral"?
Fiz um aborto aos dezesseis aninhos de idade, sozinha, sem pai, mãe, amigo(a) e muito menos namorado do lado, sem anestesia, a seco total, depois de ter falsificado um cheque do meu pai (não dava pra dizer Pai, me arranja uma grana aí pra eu fazer um aborto) enfim, uma verdadeira tragédia rodriguiana.
E aí me vem um sacana de um tal Raulito dizer que os meus argumentos são "falaciosos". PDP! Eu não contei lá a história que contei aqui (o meu "crime" já prescreveu, se não me engano) mas agora eu tinha porque tinha de falar! Estou com esse Raulito entalado na güela! E me desculpe, Zappi, a profunda grosseiria, mas falacioso é o projeto de pica desse ser abominável.
O trem tá pegando fogo lá no blog do Tambosi...

ielpo disse...

Maria, quando disse que "quase sempre com anestesia geral" eu quis dizer que em alguns casos pode-se fazer a curetagem com raqui ou peridural... portanto, SEMPRE com o conforto de uma boa anestesia!

Não consigo imaginar a crueldade física e psíquica de se fazer um aborto "a seco"!!!!!!!

Anônimo disse...

Por que tão pouca cobrança com relação aos homens? como se mulher fizesse nenê por telepatia...
Sou a favor que a mulher decida o uso do seu corpo,se ela não for a dona quem será? o pai? os marido? o parceiro( se já não deu no pé)os homens da sociedade, quem são eles? padres? políticos?jornalistas?
A rigor eles nem deveriam se meter muito na questão,pela simples razão que é na barriga da mulher que o filho cresce além de ser concebido. Bom mesmo seria se o ovo fosse chocado fora da barriga,hehehe, como os pinguins, ou que a madrasta mãe natureza nos desse a sorte de um hipocampo.Mas foi uma mãe natureza malvada, fazer o quê?, temos que batalhar pra corrigir os enganos.Uma vez, ao ver uma amiga se contorcendo de cólicas e quase chocando de uma hemorragia , enqto lhe pediam calma, paciência, força, ela se saiu com essa" Deus existe, fez o mundo,e era bicha, pois só botou na mulher a mala toda da reprodução, pros homens só oba-oba, lavou tá novo".
Junto com a questão do aborto, e até mais importante do que ele, no sentido de 'evitar o nascimento de futuros marginais', fico pensando por que é mais difícil a pena de morte pra quem já nasceu, tá no mundo, fazendo só merda, matando, estuprando,portanto já dando provas de que não deveria ter nascido, mas já que nasceu que tenha a vida condicionada a ser gente,a respeitar as leis que condenam mortes, com agravantes de roubo e estupro,seqüestro etc.?
Um bebê ainda não se sabe o que via ser, pode dar numa boa pessoa, até num ser muito especial,mas o cara que já teve tempo de vida pra aprender, fazer escolhas e escolheu mal, por que não a pena de morte também?
é um tal de "reeducar, recuperar", mas a vida da vítima quem recupera?o trauma de abuso e estupro?Esse passa-maõ na cabeça de bandido já nascido é que dá mais nojo.