2006-11-15

A escalabilidade do trambique

Em jargão industrial diz-se que um processo é "escalável" quando a partir de um volume menor, aumentando-se a fábrica pode-se aumentar a produção proporcionalmente, sem aumentar os custos. Em geral, em processos escaláveis consegue-se uma "economia de escala", tornando a produção mais eficientee quando se processam maiores volumes.

Infelizmente os trambiques são escaláveis. O malandro começa com uma "esperteza" pequena, nada acontece, e com a experiência que adquire tenta uma malandragem mais volumosa. Assim, pode-se ir crescendo, crescendo... o céu é o limite. Em uma estrutura corrupta chega-se ao ponto de inserir os trambiques na constituição federal (adivinhem de que lugar falo) para consolidar o privilégio.

Há um contraste impressionante com o tremendo esforço individual para se superar. Quando conseguimos algo realmente fantástico é normalmente muito difícil subir um estágio e conseguir algo ainda melhor. Assim, só como exemplo, Isaac Newton encontrou sua glória nos Principia, Albert Einstein com a sua relatividade restrita e Charles Darwin com sua teoria da evolução. Todas essas realizações aconteceram quando os autores eram jovens e todos passaram o resto de suas vidas tentando superar seus próprios marcos, sem sucesso. Definitivamente, as conquistas intelectuais não são escaláveis.

A melhor maneira de fazer com que trambiques não sejam escaláveis é coibí-los na fase experimental. Quando crescem muito é quase impossível parar a avalanche que desencadeiam.

2006-11-13

Outra trilogia

Confesso: tenho uma predileção especial por trilogias. Como em "Os três votos de Lula" (aqui), ou em "Três verdades perigosas" (aqui). Decidi escrever outra, onde mostro que no Brasil não há Democracia, Capitalismo e Liberdade. Leia aqui.

Ilhas de excelência

Fonte: Economist


Este gráfico mostra o produto interno bruto, por habitante, ajustado pelo poder de compra de diversos países. O Brasil está em verde, derrapando. Deverá ser superado pela China em uns poucos anos. Lembrem-se que este é o cálculo por habitante. Isso significará que cada chinês será em média mais rico do que cada brasileiro... Mas nem tudo está perdido. Apesar da economia como um todo estar estagnada, existem setores da economia indo muito bem. Veja o próximo gráfico:

Fonte: Veja


Essa "Matisse" é uma empresa de publicidade. Que bom, né? Alguns publicitários estão indo bem no Brasil, apesar da má fama que tipos nefastos como Marcos Valério e Duda Mendonça emprestaram à categoria.

Ooops... Os donos da Matisse são sócios do filho de Lula na Gamecorp. E a Matisse fatura verba da presidência... Coincidência, né?

Só pode ser coincidência. Ninguém tem o direito de suspeitar de nada. A publicidade federal é uma ilha de excelência em um país que não tem do que se gabar.


2006-11-12

Insônia e scones

Meu pai dizia que sofria de insônia. Eu nunca sabia se ele estava brincando. É que eu nunca conheci alguém que tivesse tal facilidade para dormir. Quando estava cansado, acomodava-se, e em menos de um minuto estava dormindo. Era incrível ele dizer que tinha algum problema de sono...

Não me continha e perguntava, rindo:

"Insônia, você?"

"Todas as manhãs acordo às 5 da manhã e não consigo voltar a dormir."

"Mas a que horas você vai dormir?"

"Às dez."

"Por que não vai dormir mais tarde?"

"Não consigo. Às dez já estou cansado e quero dormir."

Não posso chamar de insônia o que meu pai tinha. Ele ia dormir com os passarinhos e com eles acordava. Nas manhãs silenciosas, ouvia-se muitas vezes o canto dos sabiás. Meu pai aproveitava esse horário especial para ler, estudar, fazer café da manhã, planejar o dia. Ele costumava fazer scones, que eu comia ainda quentinhos no café. Sempre ajustava o método, cada vez os fazia mais depressa e melhor. Modificava as proporções dos ingredientes, sempre experimentando... Coisa de químico...

Quando me mudei para a Austrália, quase em choque notei que há scones em quase todos os cafés. Claro, é uma receita inglesa. Nenhum, naturalmente, tinha o sabor dos do meu pai. Uma tarde, quando não havia ninguém em casa, decidi fazê-los, de acordo com a receita original que eu tinha daquela época, mais de 20 anos atrás. Até que não foi tão difícil... estes tem um sabor mais parecido, mas ainda falta algo. Meu pai sempre dizia que é necessário fazer a mesma receita 4 ou 5 vezes para realmente ter controle do que está acontecendo.

"Mesmo que a gente acerte na primeira, antes de repetir várias vezes não sabemos nada."

Fiz um café, enquanto saboreava os scones sozinho, pensativo. Um pássaro começa a cantar. Soava quase igual a um sabiá. Aqui em Melbourne? Era um "Blackbird" (Turdus merula), um pássaro europeu que é parente próximo do brasileiro (Turdus rufiventris). Os blackbirds entretanto não cantam só de madrugada, cantam o dia inteiro.

Fiquei quieto por um momento. Misteriosamente fui levado àquelas manhãs silenciosas de tanto tempo atrás. Eu saboreava cuidadosamente esse instante.

"Preciso aperfeiçoar os meus scones" - pensei.

2006-11-11

O blog do Zappi pergunta, a Aeronáutica responde

Em um post anterior (cabeça no travesseiro, clique aqui) perguntei qual seria o nível de Inglês exigido dos controladores de vôo da Lulândia e, para minha surpresa, a Aeronáutica me responde aqui. Fiquei impressionado. O que mais me impressionou não é o fato de que só 3% sabem um pouco de Inglês, mas o fato de que só em 2008 é que vão começar a exigir um nível melhor. Mudem logo o nome para Lulândia, vai...

2006-11-10

O Brasil não é capitalista

Já expliquei aqui porque o Brasil não é uma democracia. Resumindo: o mau funcionamento do sistema legal faz com que todo o sistema democrático esteja subvertido.

Por motivos parecidos, o capitalismo também não funciona no Brasil. Os contratos que não são cumpridos não podem ser rapidamente executados, o que faz com que se utilizem métodos alternativos de compensação dos agentes, complicando as transações enormemente. Por outro lado, setores inteiros da economia são regulados de forma maciça pelo Estado, a ponto de coibir a competição. Todo o setor energético está estatizado, de modo que todo insumo de energia passa pelo crivo de um estado que não é democrático e cuja corrupção é norma e não exceção.

De uma maneira ainda mais perniciosa, a propriedade privada não é defendida adequadamente pelo sistema legal. As raízes disso estão profundamente enterradas no inconsciente coletivo brasileiro. O lucro é visto como algo sujo, ilegal e imoral. A melhor maneira de destruir a imagem de um político é fotografá-lo com uma montanha de dinheiro. O brasileiro fica horrorizado, não por causa da forma ilícita pela qual o dinheiro foi conseguido, mas pelo dinheiro em si. É uma distorção profunda: na mente do brasileiro todo acúmulo de capital só é possível por vias ilegais ou imorais. A palavra "empresário" já é sinônimo de ladrão, graças a essa mentalidade prevalescente. Chega ao ponto de crimes cometidos contra ricos serem encarados como uma forma de distribuição de renda: do rico para o ladrão pobre. Qualquer seqüestro é visto como um fato normal: "Ah, mas ele era rico, não era?"

Também está claro, no inconsciente coletivo brasileiro, que é perfeitamente normal tirar terras dos ricos para dar para os auto-denominados "sem terra", assim como dar teto para os "sem teto" e assim por diante. O que não é compreendido por quase ningúem é que estas 'organizações' se aproveitam desses conceitos para faturar dinheiro do governo. Elas não são legítimas, mas quem se importa? Estão tirando dos que tem muito...

Da mesma forma, e pelo fato do sistema legal ser tão deficiente, qualquer bem comum é sistematicamente usurpado. Ninguém nem pisca quando alguém rouba dinheiro do Estado. Afinal, esse tal de "Estado" tem muito, não tem?

O choque maior vem quando se consideram investimentos estrangeiros ou investimentos de brasileiros no exterior. Apesar de permitidos, a parafernália necessária para evitar que "as riquezas brasileiras sejam roubadas" é realmente impressionante. Até pouco tempo atrás, um estrangeiro voltando para seu país não podia usar os reais que tinham sobrado na viagem para comprar novamente dólares. Isto se deve provavelmente aos mecanismos de controle do Banco Central... façam-me o favor.

O Brasil não é capitalista devido à mentalidade de seu povo. Mesmo em países decididamente comunistas nos anos 80 o tratamento dado ao capital era mais respeitoso que o tupiniquim. Não é à toa que o Brasil não consegue atrair investimentos, exceto nos casos em que o governo literalmente suborna investidores com juros obscenos.

Só falta um pouquinho para que o sonho dos trotskistas brasileiros se torne realidade. Se houver uma estatização em massa dos meios de produção, ninguém levantará a sobrancelha. Há perigo até dos brasileiros comemorarem. Por acaso alguém reagiu quando o Collor fez o confisco? Só falta um peteleco para o Brasil virar Cuba de vez.

Continua aqui.


2006-11-08

Buscas na rede - O prazer da descoberta

Aproveitando que já tenho uma audiência maior, posso informar aos meus leitores o que as pessoas que acabam caindo no meu blog estavam procurando... essas buscas são um mistério profundo para mim.

O campeão absoluto é Tarso Genro e suas poesias 'eróticas' (clique aqui) com espantosos 21% das buscas. O cara está tendo um ibope danado com as porcarias que escreveu...

Em segundo lugar, com impressionantes 17%, procurando saber a respeito de "tolerância" e "preconceito". Parece que as pessoas estão tentando entender estes termos, utilizados de maneira tão ardilosa pelos petralhas. A confusão mental e moral que eles causam não parece ter limites...

Empatados com 7% estão o correspondente da Economist, Melbourne, e gente procurando saber algo de música clássica... Viram? O mundo não está totalmente perdido ainda. Aí, na lanterninha, com uns 2% das buscas estão o Feynman, Sir Isaac Newton e.... Mafalda.

Tem também alguém querendo saber se os presos tem ou não direito de fugir, quais os países com ditadura (!), e um fascinante: "O que tem no Animal Farm que não tem no Revolução dos Bichos". Será que ele acha que omitiram algo na tradução? Haja teoria conspiratória...

Como estou meio farto de falar de gente ruim, vou indicar uma excelente conversa com Feynman (em inglês). Ele fala da beleza poética e da beleza científica, do pai e de como aprendeu dele que simplesmente saber o nome das coisas não é compreender o mundo. Fala também da bomba atômica e várias anedotas, inclusive de Física Teórica. O vídeo é delicioso, dura uns 40 minutos e recomendo especialmente aos controladores de vôo: pode ajudá-los a entender um pouco mais de Inglês. Se os petralhas quiserem também podem ver. Ah... esqueci que eles são contra a língua inglesa... Com vocês, Feyman em "The pleasure of finding things out". Have fun!





2006-11-05

Liberdade? Que liberdade?

Em todo o mundo utiliza-se a pena de privação de liberdade para bandidos perigosos, assaltantes, assassinos. O motivo é poupar as pessoas decentes do convívio com bandidos. Priva-se a liberdade dos maus para os bons poderem viver tranquilos. Certo? Errado.

Um novo sistema foi inventado no Bananão: não se prende ninguém, e quando se prende, solta-se rapidinho. Isso faz com que erros judiciais tenham um custo baixíssimo para o injustiçado. E todo condenado é tratado como injustiçado.
Como os bandidos ficam soltos, é então necessário monitorar todo mundo... o que causa uma outra injustiça: a liberdade de todo mundo é comprometida pelos trambiques de poucos, que por sinal estão até no governo, certo?

Aí a sociedade reage, se proteje: as vendas de carros blindados, sistemas de segurança, cameras de vídeo explodem. Não serve para muito: os maravilhosos tribunais bananeiros não estão absolutamente interessados em condenar bandidos, mas em cercear liberdade dos que não são. Só para confirmar, o presidente da república inocenta bandidos diáriamente, ora chamando crimes de "erros" ou bandidos de "aloprados" ou ainda dizendo que os presos estão presos por conta da falta de oportunidade que tiveram na vida. Não é à toa que o PCC votou em massa no Lula.

Na falta de democracia, capitalismo ou liberdade, há um elemento comum. A justiça não funciona. Aparentemente o sistema pode ser consertado, colocando em um presídio de segurança máxima aqueles gatos pingados que mais trabalham para subvertê-lo. Afinal é a liberdade de milhões que está em jogo.



Teste: Que figura geométrica aparece nas três imagens abaixo?


2006-11-03

A cabeça no travesseiro

Um belo avião, um Airbus moderníssimo. Longa viagem, video para passar o tempo. Vários filmes bobos, um canal com 'pegadinhas' de uma emissora canadense. Estou cansado, quero dormir. O canal de áudio de música clássica volta ao início depois de duas horas, não quero ficar ouvindo tudo repetido... lembro de um vôo para a Europa, quando tinha 17 anos, a "overture 1812" repetiu os tiros de canhão tantas vezes...

O piloto avisa: o canal 14 transmite as comunicações de rádio. Boa! Quem sabe me ajuda a descansar. Sintonizo e ouço o silêncio. Mas não era um silêncio imediato entretanto, de um rádio desligado. Era o silêncio do vazio, da imensidão que separa o avião da torre ou de outro avião. Muito raramente, fala uma voz com alguma estática, alguém responde. Uma gíria desconhecida, uma forma de falar que me parecia estranha no início. Aos poucos ia me acostumando e entendendo mais: estes éramos nós, esses eram da torre de Los Angeles. Esses eram de outro vôo, falando com a torre. Mais fraco: provavelmente mais distante. Às vezes ouvia-se somente a torre de controle, eu adivinhava a resposta de um vôo longínquo.

Os longos silêncios nos remetiam a essa noite estranha, a esses espaços imensos. Imprevisíveis, as conversas vinham, entrecortadas, quase nos dizendo onde estavam, eu quase as localizava em uma tela de radar à medida que adormecia. Os aviões estavam conectados a essa malha maravilhosa de ondas de rádio. As conversas eram curtas e precisas: uma pergunta, uma resposta, um agradecimento. Via os maravilhosos painéis iluminados na noite que era impenetrável para os olhos, mas transparente para o rádio. Muitas décadas de tecnologia seguravam essa imensa máquina no ar, enquanto os passageiros assistiam vídeos idiotas.

Um silêncio mais longo me garantiu que voávamos sobre território despovoado, talvez o oceano, talvez uma extensa floresta, a cada hora percorríamos mil quilômetros. Então algo diferente aconteceu: uma conversa distante, mas, surpreendentemente em Português. Por quê? Passamos pelo México, América Central, todos países de fala hispana e todas as comunicações eram em perfeito e impecável Inglês. O nosso comandante, eu já lhe reconhecia a voz, se dirige a um controlador... uma pausa mais longa. Alguém pede para repetir, com forte sotaque brasileiro, não parece ter entendido. O comandante, paciente e seguro, repete devagar. O brasileiro responde, em Inglês.

Pensei que, de repente, as comunicações ficaram mais difíceis. O piloto americano tinha dificuldade em falar com o brasileiro da torre. As conversas entre torre e outros pilotos continuavam, profusas, em Português, imperscrutável para o nosso comandante. Será que esses atrasos e mal-entendidos não seriam perigosos? Quanto significariam esses dez segundos a mais que os controladores levavam para entender Inglês? Fiz as contas mentalmente...dez segundos... mil quilômetros por hora, trezentos metros por segundo... uns três quilômetros. Considerando que outro vôo podia vir em direção contrária, três vezes dois... 6 quilômetros.

Dez segundos de atraso significam 6 quilômetros em um choque entre aviões. Pensei na tecnologia envolvida nos aviões, e como esta está comprometida por alguém que não aprende nem Inglês, a língua universal do espaço aéreo. Pensei que o Brasil não exige Inglês nem para o serviço diplomático, qual será o nível exigido dos controladores de vôo?

Não me preocupei. Apesar desse atraso de dez segundos, senti confiança em meu piloto. Ele parecia saber do problema e sua voz nem se alterou. Os equipamentos de segurança nos protegeriam da ignorância, pensei. Apoiei a cabeça no travesseiro e adormeci.

Continua... clique aqui.

2006-11-01

Vamos chamar cada coisa pelo seu nome?

Ah, que bonita a festa democrática! O povo, pobre mas feliz, elege um presidente que adora "cuidar de pobre, porque pobre não dá trabalho nenhum". É tanta a beleza da democracia brasileira que revistas internacionais proclamam: é re-eleito Lula, para alegria dos pobres!

Que bom, né? Ah, mas tem um pobreminha. Justo agora que o Lula ia livrar o pobre da miséria, veio os burgueis pra impidir. Alegria de pobre dura pouco... 'Xa o homi trabalhá!

Cuidar de pobre é mais fácil mesmo. Pobre, bem pobre mesmo, não lê jornal. Jornal é caro e tá cheio de letrinha. O Lula sabe disso. A idéia é alfabetizar o pessoal com panfleto da CUT, assim eles não recebem má influência de "certas revista".

Mas os burguês tá em polvorosa. "Certas revista" falou que o Lula robô uns bilhão do fundo de pensão (sei lá o que é isso). Colocô trinta mil companhêro pra ganhá sem fazê nada e que custa oitocento milhão pro contribuinte (contri o que?). Ixi, "certas revista" falô também que veio grana de Cuba e que teve um mensarão. Falô lá um treco do lulinha que fez alguma coisa no zoológico e dispois ganhô uns milhão.

Não dá mais. "Certas revista" tem que mudá. O Lula tem mais que mandá a Polícia Federal dá uns apertão nos caras. Tem essa outra, Cara Capital, ou Carta aos Amigos que faiz tudo direitinho, né? Qual é a da "certas revista" afinal?

Tanta gente boa, os Paulo Henrique Amorins... tudo legal com ele. Ta filiz, o bicho... Pareci inté passarinho nenen quando a mãe vem trazê minhoca. Tá certo, joga o pessoal da "certa rivista" no xadrez. Eles só azucrina o homi, coitado. 'Xa o homi trabalhá!

O caldo inda não intornou. O homi ainda é presidente. Bota os burguês prá corrê com a Polícia, MST, PCC o escambau. Vai dá tudo certo. O homi falô que Cuba é que é legal, lá num tem mais burguês. Falô que Venezuela tem democracia até demais. Falô também que o Chile, não. O Chile é uma merda.